O Banco Central acendeu um sinal amarelo sobre a dívida das famílias brasileiras. Em ata do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), a autoridade monetária afirmou que prepara medidas para reduzir os riscos ligados ao peso do crédito caro no bolso do brasileiro — com dois alvos declarados: o rotativo do cartão de crédito e o empréstimo pessoal sem garantia.
Resposta direta: O Banco Central anunciou que prepara medidas para conter o avanço das modalidades de crédito mais caras, com foco no rotativo do cartão e no empréstimo pessoal sem garantia. Segundo apuração da Reuters, a prioridade é impor limites aos bancos antes de avançar para um possível teto de comprometimento de renda. Não há prazo definido, mas o diretor de fiscalização do BC afirmou esperar medidas relevantes nos próximos meses.
O que o Banco Central anunciou?
Na ata do Comef divulgada em 2 de setembro, o BC registrou preocupação com a composição da dívida das famílias — não apenas com o tamanho dela. O trecho central diz: “Considerando a participação de modalidades de crédito mais onerosas na composição da dívida das famílias, já destacada como ponto de atenção nas últimas atas do Comef, o Banco Central prepara medidas voltadas à mitigação dos riscos decorrentes dessa dinâmica, de forma a fortalecer a sustentabilidade do crédito e a resiliência do sistema financeiro”.
Traduzindo: o problema, na visão do BC, não é só que o brasileiro deve muito. É que ele deve nas linhas mais caras que existem — justamente as que mais rápido transformam uma dívida pequena numa bola de neve.
O Comef também afirmou que “o endividamento das famílias permanece em patamar historicamente alto, e o comprometimento de renda atingiu o maior nível da série histórica”, concluindo que “o cenário requer cautela e diligência”.
49,8% ou 80,9%? Os dois números que estão sendo confundidos
Aqui vale um esclarecimento importante, porque esses dois percentuais aparecem misturados no noticiário como se fossem a mesma coisa — e não são.
- 49,8% é o indicador de endividamento do Banco Central. Ele mede quanto o saldo das dívidas representa em relação à renda acumulada das famílias em 12 meses. Não significa que 49,8% das famílias estão endividadas.
- 80,9% é o percentual de famílias com dívidas, medido pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), em abril de 2026. Esse número, sim, diz quantos lares carregam alguma dívida — cerca de 8 em cada 10. Em abril de 2025, era 77,6%.
Existe ainda um terceiro dado, e talvez o mais revelador de todos: o comprometimento de renda, que mede quanto da renda mensal vai embora só para pagar parcelas e juros. Ele chegou a 28,9% em junho de 2026, alta de 0,4 ponto percentual em um mês e de 1,7 ponto em 12 meses — o maior nível da série histórica. Na prática, quase R$ 3 de cada R$ 10 que entram na casa já saem comprometidos com dívida antes de qualquer outra despesa.
Há também um recorte que costuma ficar de fora das manchetes: entre as famílias que ganham até três salários mínimos por mês, o percentual de endividadas sobe para 83,6%.
Por que o rotativo do cartão cobra 436% ao ano?
O rotativo é acionado automaticamente quando você não paga o valor total da fatura do cartão. O saldo restante é financiado — e a taxa média cobrada pelos bancos nessa modalidade chegou a 436,2% ao ano em julho de 2026, mesmo depois de um recuo de 6,2 pontos percentuais no mês.
Esse número parece absurdo porque é, de fato, o crédito mais caro do mercado brasileiro. A justificativa dos bancos é o risco: o rotativo é concedido sem garantia, sem análise prévia no momento do uso e para um público que, por definição, está com dificuldade de pagar. A inadimplência elevada nessa linha é embutida no preço cobrado de todo mundo.
Para dimensionar: 436% ao ano equivale a algo em torno de 15% ao mês. Uma dívida de R$ 1.000 que não é paga vira aproximadamente R$ 1.150 em 30 dias — e o efeito composto acelera rápido a partir daí.
Existe limite legal para os juros do cartão hoje?
Sim, e essa é uma proteção que muita gente desconhece. Pela Lei nº 14.690/2023, regulamentada pela Resolução CMN nº 5.112/2023, os juros e encargos cobrados no rotativo e no parcelamento da fatura não podem ultrapassar 100% do valor original da dívida.
Na prática: uma fatura de R$ 1.000 não pode se transformar numa dívida maior que R$ 2.000, mesmo somando todos os encargos. O crescimento não é infinito — existe um teto. Isso não torna o rotativo barato, mas impede o cenário em que a dívida multiplica indefinidamente.
Vale conhecer também a Lei do Superendividamento (Lei nº 14.181/2021), que garante o chamado mínimo existencial: nenhum credor pode comprometer toda a sua renda. Uma parcela precisa ser preservada para cobrir necessidades básicas.
Quais medidas o Banco Central está estudando?
O desenho final ainda não foi divulgado, mas as sinalizações públicas apontam para algumas direções:
- Exigência de mais capital dos bancos nas carteiras de rotativo e crédito sem garantia. Isso encarece para o banco manter esse tipo de operação, o que tende a reduzir a oferta agressiva dessas linhas.
- Limites para as instituições financeiras, que segundo a Reuters seriam a prioridade, antes de qualquer medida voltada diretamente ao consumidor.
- Um possível teto de comprometimento de renda das famílias — a etapa mais avançada, que viria depois.
- Maior transparência na exibição de taxas e do Custo Efetivo Total (CET) na hora da contratação.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, indicou que a intenção é evitar que instituições cresçam de forma artificial no mercado assumindo riscos altos sob a premissa de que o prejuízo final não ficará em seus próprios balanços. Já o diretor de fiscalização, Ailton de Aquino, afirmou que é preciso endereçar o endividamento nas linhas mais caras e que, “nos próximos meses, vamos ter algumas medidas relevantes para o sistema financeiro”.
O que as bets têm a ver com isso?
Mais do que parece. Aquino foi direto ao apontar as apostas online como parte do problema: “é indiscutível que bets são um elemento central do endividamento das famílias”. Ele chegou a questionar se seria possível existir carteira digital capaz de “burlar e abastecer créditos para as bets”.
Não é a primeira vez que o tema aparece no radar da autoridade monetária — o BC já havia tratado as apostas online como agravante do endividamento em maio de 2026. A preocupação é com um mecanismo específico: usar crédito (o mais caro que existe) para financiar aposta, o que combina duas fontes de perda no mesmo movimento.
Por que isso está acontecendo agora?
O pano de fundo é o custo do dinheiro. Com a Selic em 14% ao ano, todo o crédito da economia fica mais caro — e as linhas que já eram caras ficam ainda mais. Como detalhamos no artigo sobre o que esperar da Selic, o mercado projeta um corte para 13,75% em setembro, mas com pausa em seguida — ou seja, juro alto por mais tempo.
O efeito já aparece na atividade econômica: o PIB do segundo trimestre cresceu apenas 0,5%, desacelerando frente aos 1,1% do primeiro trimestre, com queda puxada justamente pelo consumo das famílias. Em nota técnica, o Ministério da Fazenda creditou o resultado aos juros altos e ao endividamento elevado — reconhecendo que famílias apertadas consomem menos, o que freia a economia inteira.
O que fazer com sua dívida enquanto as medidas não chegam
Esse é o ponto que quase nenhuma reportagem sobre o assunto responde. As medidas do BC podem levar meses e, quando vierem, tendem a mirar os bancos primeiro — não a dívida que já está na sua fatura. Enquanto isso, algumas ações práticas fazem diferença:
- Liste todas as dívidas com o CET de cada uma. Não o valor da parcela — o custo efetivo total. Sem esse mapa, é impossível saber por onde começar.
- Ataque primeiro a mais cara. Quase sempre é o rotativo do cartão, seguido do cheque especial. Quitar R$ 500 de rotativo economiza muito mais do que quitar R$ 500 de um financiamento com juro baixo.
- Troque dívida cara por dívida barata — mas só se o CET for realmente menor. Migrar do rotativo (perto de 15% ao mês) para uma linha bem mais barata faz sentido matemático. Só cuidado para não usar o crédito novo e continuar no rotativo: aí a dívida dobra em vez de trocar.
- Negocie. Credores costumam aceitar descontos relevantes, especialmente em dívidas antigas. Vale procurar diretamente a instituição ou usar plataformas de renegociação.
- Não reabra o rotativo enquanto a dívida antiga não estiver encerrada. Guardar o cartão durante a fase de quitação evita o ciclo se repetir.
- Comece uma reserva mínima em paralelo, mesmo pequena. Parece contraintuitivo poupar enquanto se deve, mas ter R$ 300 ou R$ 500 separados muda o comportamento: é o que impede você de voltar ao rotativo no próximo imprevisto.
Aumentar a renda também é parte da conta
Cortar gastos tem um limite — especialmente para quem já está no osso. Em muitos casos, sair do endividamento exige atacar o outro lado da equação: a renda. Vale considerar se qualificar para ganhar mais, seja com uma renda extra no curto prazo ou com uma qualificação que amplie as oportunidades no médio prazo. Não é solução mágica, mas é a variável que muita gente esquece de puxar enquanto tenta apenas reduzir despesas.
O que observar daqui pra frente
As próximas atas do Comef e comunicados do Banco Central devem trazer o desenho concreto das medidas. Vale acompanhar diretamente pelo site do Banco Central, onde as atas são publicadas na íntegra.
Também entra no radar a decisão do Copom em 15 e 16 de setembro: um corte na Selic não derruba os juros do cartão da noite para o dia, mas o início de um ciclo consistente de queda ajuda a aliviar o custo do crédito ao longo do tempo.
Para quem está começando a organizar as finanças, essa leitura recomendada sobre finanças pessoais é um bom ponto de partida para entender a lógica por trás das decisões de crédito e consumo.
Perguntas frequentes
O Banco Central vai limitar os juros do cartão de crédito?
Não foi anunciado tabelamento de juros. As medidas em preparação miram limites e exigências para os bancos, com um possível teto de comprometimento de renda em etapa posterior.
Meus juros do cartão podem crescer para sempre?
Não. Pela Lei 14.690/2023, os juros e encargos do rotativo e do parcelamento não podem ultrapassar 100% do valor original da dívida.
49,8% significa que metade das famílias está endividada?
Não. Esse indicador do Banco Central mede a relação entre o saldo das dívidas e a renda acumulada em 12 meses. O percentual de famílias com dívidas é medido pela CNC e estava em 80,9% em abril de 2026.
Quando as medidas do Banco Central entram em vigor?
Não há prazo definido. O diretor de fiscalização do BC afirmou esperar medidas relevantes nos próximos meses, mas o desenho final ainda não foi divulgado.
