Ações de IA caem após pedido de desaceleração; BIS alerta para riscos no crédito

Gabriel Oliveira
Ações de IA caem após pedido de desaceleração; BIS alerta para riscos no crédito

Executivos de algumas das principais empresas de inteligência artificial defenderam uma redução no ritmo de avanço dos modelos mais poderosos, provocando uma forte queda nas ações ligadas ao setor. No mesmo dia, o BIS divulgou um relatório mostrando que o crédito privado destinado a empresas de tecnologia superou US$ 1 trilhão.

As ações de empresas ligadas à inteligência artificial caíram em diferentes mercados nesta segunda-feira, 14 de setembro, após executivos do setor defenderem uma desaceleração coordenada no desenvolvimento dos modelos mais avançados.

A movimentação ocorre poucos dias depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitar novos freios ao desenvolvimento da inteligência artificial e defender que o país mantenha uma postura mais agressiva na disputa tecnológica contra a China.

Agora, porém, os alertas partiram de dentro da própria indústria. Dario Amodei, CEO da Anthropic, defendeu que as empresas avancem de maneira mais cautelosa, permitindo avaliações independentes e a implementação de medidas adicionais de segurança.

Sam Altman, CEO da OpenAI, e Elon Musk, responsável pela xAI, manifestaram apoio à proposta. A possibilidade de uma redução nos investimentos e no ritmo de lançamento de novos modelos foi suficiente para aumentar a cautela dos investidores.

Resumo da notícia

  • Executivos da Anthropic, OpenAI e xAI apoiaram uma desaceleração no avanço dos modelos mais poderosos de inteligência artificial.
  • O índice de semicondutores da Bolsa da Filadélfia caiu 5,9%.
  • Ações de empresas como Nvidia, AMD, Broadcom e Micron recuaram.
  • O Nasdaq encerrou o pregão com queda de 0,56%.
  • O BIS mostrou que o crédito privado concedido a empresas de tecnologia superou US$ 1 trilhão em 2025.
  • O relatório não afirma que uma bolha da inteligência artificial está prestes a estourar, mas aponta riscos que precisam ser monitorados.

Quais ações foram afetadas?

Nos Estados Unidos, o índice de semicondutores da Bolsa da Filadélfia, que reúne algumas das principais empresas do segmento, caiu 5,9%.

Nvidia, AMD, Broadcom e Micron registraram perdas entre aproximadamente 3,4% e mais de 5%. O movimento também atingiu companhias de tecnologia na Europa e na Ásia.

A SoftBank, que possui participação relevante na OpenAI, chegou a cair mais de 10% no mercado japonês. A fabricante holandesa de equipamentos para chips ASML e empresas asiáticas como SK Hynix e TSMC também foram pressionadas.

Apesar da forte queda entre as fabricantes de semicondutores, os principais índices americanos tiveram perdas mais moderadas. O Nasdaq recuou 0,56%, enquanto o S&P 500 caiu 0,48% e o Dow Jones perdeu 0,29%.

Por que o mercado reagiu dessa forma?

O crescimento das empresas de inteligência artificial está diretamente ligado à expectativa de investimentos cada vez maiores em chips, data centers, energia, armazenamento e infraestrutura digital.

Quando executivos importantes defendem uma redução no ritmo de avanço dos modelos, parte dos investidores começa a questionar se os investimentos previstos continuarão crescendo na mesma velocidade.

Uma desaceleração poderia significar uma procura menor por chips de alta capacidade, servidores e equipamentos para data centers. Isso afetaria principalmente as empresas que mais se valorizaram durante a expansão da inteligência artificial.

Entretanto, seria impreciso atribuir toda a queda das ações somente aos alertas sobre segurança.

O petróleo voltou a superar US$ 100 por barril, aumentando as preocupações com a inflação mundial. Ao mesmo tempo, o rendimento dos títulos do Tesouro americano de dez anos chegou a ultrapassar 5%, elevando o custo do dinheiro para empresas e investidores.

Empresas de tecnologia são especialmente sensíveis aos juros porque boa parte de seu valor de mercado depende de lucros esperados para os próximos anos. Quando os juros sobem, esses resultados futuros passam a valer menos nos cálculos dos investidores.

O que os executivos de IA estão propondo?

A proposta não significa paralisar a inteligência artificial ou interromper completamente o treinamento de novos modelos.

A ideia apresentada por Dario Amodei é reduzir o ritmo de evolução dos sistemas mais poderosos para permitir que empresas, avaliadores independentes e governos tenham mais tempo para identificar riscos e estabelecer limites de segurança.

Entre as medidas discutidas estão avaliações conduzidas por especialistas externos, padrões de segurança compartilhados e maior coordenação entre as empresas responsáveis pelos modelos mais avançados.

O problema é que existe uma disputa comercial e geopolítica envolvendo Estados Unidos e China. Mesmo que algumas empresas americanas concordem em avançar mais lentamente, não há garantia de que todos os concorrentes internacionais adotariam a mesma postura.

Esse conflito ajuda a explicar por que Trump se posicionou contra novas restrições. Para o governo americano, uma desaceleração unilateral poderia favorecer a China na corrida pela liderança tecnológica.

BIS mostra expansão do crédito para empresas de tecnologia

No mesmo dia da queda das ações, o Banco de Compensações Internacionais, conhecido pela sigla BIS, publicou a edição de setembro de sua revisão trimestral.

O BIS funciona como um fórum de cooperação entre bancos centrais e costuma acompanhar riscos relacionados ao endividamento, aos mercados e à estabilidade do sistema financeiro internacional.

Segundo o relatório, o volume de crédito privado concedido a empresas americanas de tecnologia aumentou de aproximadamente US$ 22 bilhões em 2010 para mais de US$ 1 trilhão em 2025.

A participação dessas companhias no mercado de crédito privado passou de 22% para aproximadamente 44% no período. O crescimento se acelerou depois de 2020, acompanhando a expansão de empresas de software, serviços digitais e inteligência artificial.

É importante observar que o valor de US$ 1 trilhão não representa exclusivamente dívidas de empresas de IA. O cálculo abrange o conjunto do setor de tecnologia analisado pelo BIS.

O que é crédito privado?

Crédito privado é o financiamento concedido por fundos e outras instituições não bancárias diretamente às empresas.

Esse mercado ganhou espaço porque muitas companhias de tecnologia possuem poucos ativos físicos para oferecer como garantia. Seu valor está concentrado em softwares, propriedade intelectual, contratos, dados e receitas recorrentes.

Fundos de crédito privado conseguem criar contratos mais flexíveis e conceder empréstimos com base nesses fluxos de receita, mesmo quando a empresa ainda não apresenta lucros elevados.

O modelo ajudou a financiar empresas inovadoras, contribuiu para a abertura de novos negócios e favoreceu a geração de empregos em regiões com maior concentração tecnológica.

Por outro lado, o crescimento rápido do crédito e a concessão de empréstimos a empresas com fundamentos financeiros mais frágeis levantam dúvidas sobre a capacidade de pagamento dessas companhias caso o cenário econômico piore.

O BIS está afirmando que existe uma bolha?

Não. O relatório não declara que uma bolha da inteligência artificial está prestes a estourar.

Os pesquisadores reconhecem que o crédito privado desempenhou um papel importante no financiamento da inovação e no crescimento das empresas de tecnologia.

Ao mesmo tempo, o BIS considera que a sustentabilidade dessa expansão permanece uma questão em aberto. A instituição destaca que a redução dos spreads — diferença entre o custo de captação e os juros cobrados nos empréstimos — combinada à entrada de empresas com fundamentos mais fracos pode indicar que alguns riscos não estão sendo corretamente precificados.

Em outras palavras, o alerta não é contra a inteligência artificial. A preocupação está na possibilidade de investidores e credores financiarem projetos caros demais com base em expectativas de retorno que talvez não sejam alcançadas.

Análise do Mão na Grana

A queda das ações não significa que a inteligência artificial perdeu seu potencial de transformar empresas, profissões e setores inteiros da economia.

O que o movimento revela é que o mercado começou a separar duas discussões diferentes: o potencial tecnológico da IA e a rentabilidade financeira das empresas envolvidas nessa corrida.

Uma tecnologia pode ser revolucionária e, ainda assim, existir excesso de otimismo nas ações de determinadas companhias. Isso já aconteceu em outros ciclos de inovação.

A internet transformou a economia mundial, mas diversas empresas que receberam grandes investimentos durante a bolha das pontocom desapareceram. A tecnologia permaneceu e cresceu, enquanto parte das expectativas financeiras se mostrou exagerada.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado à inteligência artificial. A adoção da tecnologia pode continuar avançando mesmo que algumas empresas reduzam investimentos, acumulem dívidas ou apresentem retornos inferiores aos esperados.

Por isso, o principal risco para o investidor não é necessariamente a inteligência artificial fracassar. O risco está em pagar qualquer preço por uma empresa somente porque ela está associada ao setor.

O que o investidor deve acompanhar?

Nos próximos meses, alguns indicadores ajudarão a mostrar se a queda foi apenas uma correção pontual ou o início de uma reavaliação mais profunda do setor:

  • O ritmo de investimentos das grandes empresas em data centers e chips;
  • A evolução das receitas geradas por produtos de inteligência artificial;
  • O endividamento das empresas de tecnologia;
  • As decisões de juros do Federal Reserve;
  • Novas propostas de regulamentação nos Estados Unidos;
  • A resposta da China aos pedidos de desaceleração;
  • O desempenho das fabricantes de semicondutores nos próximos balanços.

Se as receitas começarem a acompanhar os investimentos bilionários, as empresas poderão justificar parte das valorizações registradas nos últimos anos. Caso os custos continuem crescendo mais rapidamente do que os resultados, o mercado poderá exigir preços mais baixos e projetos mais rentáveis.

Conclusão

A queda das ações ligadas à inteligência artificial combina preocupações com segurança, juros elevados, petróleo caro e dúvidas sobre o retorno dos investimentos realizados pelo setor.

O relatório do BIS acrescenta outro elemento ao debate ao mostrar que o crescimento das empresas de tecnologia também está sendo financiado por uma expansão significativa do crédito privado.

Isso não confirma o estouro de uma bolha, mas mostra que a corrida da inteligência artificial está entrando em uma nova fase. Depois de anos concentrado no potencial da tecnologia, o mercado começa a cobrar segurança, rentabilidade e capacidade de pagamento.

Para o investidor, a mensagem é simples: acreditar no futuro da inteligência artificial não elimina a necessidade de analisar preço, dívida, geração de caixa e os riscos de cada empresa.

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