A China passou a aplicar nesta quinta-feira (1º) uma tarifa adicional de 55% sobre as importações de carne bovina brasileira que ultrapassarem a cota estabelecida para 2026. A medida entrou em vigor à 0h, após o Brasil atingir 100% do limite anual previsto pelas autoridades chinesas.
A confirmação foi publicada pelo Ministério do Comércio da China (MOFCOM). Segundo o órgão, as importações de carne bovina provenientes do Brasil alcançaram em 29 de setembro a totalidade da quantidade prevista para o país.
A cota brasileira para 2026 é de aproximadamente 1,106 milhão de toneladas. Até esse limite, a carne brasileira está sujeita à tarifa regular de importação de 12%. Sobre os volumes que excederem a cota, entretanto, será acrescentada uma sobretaxa de 55%, levando a tarifa total a 67%.
Por que a China passou a cobrar 55% da carne brasileira?
A sobretaxa não representa uma nova sanção criada especificamente contra o Brasil. Ela faz parte de uma medida de salvaguarda adotada anteriormente pelo governo chinês para as importações de carne bovina.
O mecanismo entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026 e estabelece cotas específicas para diferentes países fornecedores. Quando determinado país atinge o limite estabelecido, os volumes adicionais ficam sujeitos a uma tarifa extra de 55%.
Em julho, quando informações sobre uma suposta nova taxação da carne brasileira começaram a circular, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) esclareceu que a medida já existia e que a sobretaxa somente seria acionada caso o Brasil ultrapassasse sua cota.
Naquele momento, aproximadamente 80% do limite brasileiro havia sido utilizado. Agora, a própria China confirmou que a cota chegou a 100%.
Quanto o Brasil pode exportar para a China sem a sobretaxa?
O sistema de salvaguardas está previsto para permanecer em vigor até o final de 2028. As cotas aumentam gradualmente durante o período.
| Ano | Cota brasileira |
|---|---|
| 2026 | 1,106 milhão de toneladas |
| 2027 | 1,128 milhão de toneladas |
| 2028 | 1,151 milhão de toneladas |
As quantidades não utilizadas em um ano não podem ser transferidas para o período seguinte, segundo as regras estabelecidas pelo Ministério do Comércio chinês.
Por que a China é tão importante para a carne brasileira?
A China continua sendo o principal destino da carne bovina exportada pelo Brasil, o que torna qualquer alteração nas condições de acesso ao mercado chinês especialmente relevante para o setor.
Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil exportou cerca de 899,2 mil toneladas de carne bovina para a China, movimentando aproximadamente US$ 5,51 bilhões, segundo levantamento da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) baseado em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
O mercado chinês respondeu por aproximadamente 40,8% de toda a carne bovina brasileira exportada no período.
Os efeitos da aproximação do limite, porém, já estavam aparecendo nos embarques. Em agosto, a China recebeu cerca de 18,9 mil toneladas de carne bovina brasileira, uma queda de 88,2% em relação ao mesmo mês de 2025.
Segundo a Abiec, parte dessa redução ocorreu porque frigoríficos diminuíram os embarques diante da proximidade do esgotamento da cota.
Outros mercados ganham espaço nas exportações brasileiras
Apesar da redução das vendas para a China, as exportações brasileiras de carne bovina continuam encontrando espaço em outros mercados.
Em agosto, os Estados Unidos receberam 35,3 mil toneladas, crescimento de 276% em relação ao mesmo mês de 2025. A União Europeia recebeu 23,4 mil toneladas, enquanto Rússia e Chile importaram 22 mil e 17,4 mil toneladas, respectivamente.
No acumulado de janeiro a agosto, o Brasil exportou 2,202 milhões de toneladas de carne bovina para o exterior, crescimento de 5,3% na comparação anual. A receita chegou a US$ 12,79 bilhões, avanço de 21,7%.
A diversificação dos destinos pode ajudar a indústria brasileira a reduzir parcialmente sua dependência do mercado chinês, especialmente enquanto as restrições de volume permanecerem em vigor.
O que a tarifa pode significar para os frigoríficos brasileiros?
A tarifa adicional torna menos competitivos os embarques que ultrapassarem a cota, já que a tributação sobre esses volumes passa de 12% para 67%.
Por isso, grandes frigoríficos brasileiros e companhias expostas ao comércio internacional de proteínas entram no radar dos investidores diante das mudanças no fluxo de exportações.
Entre as empresas brasileiras do setor está a Minerva (BEEF3), que também tem operações em diferentes mercados internacionais. A companhia já apareceu entre os destaques recentes entre as maiores altas e baixas da Bolsa.
O efeito financeiro da salvaguarda, entretanto, pode variar entre as empresas de acordo com fatores como exposição ao mercado chinês, localização das plantas exportadoras, capacidade de redirecionar produtos para outros países e estratégia comercial. Por isso, a entrada da sobretaxa não significa automaticamente um impacto equivalente sobre todas as companhias do setor.
Brasil tenta ampliar espaço para exportar carne à China
O governo brasileiro vem buscando alternativas para reduzir o impacto da limitação imposta pelo sistema de cotas.
Uma das possibilidades discutidas envolve o aproveitamento de parte da cota destinada ao Uruguai que não seria utilizada pelo país vizinho. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou em setembro que o Uruguai havia autorizado o Brasil a utilizar esse excedente.
A transferência, porém, depende da concordância da China. Até o momento, não há confirmação oficial das autoridades chinesas de que os volumes destinados ao Uruguai poderão ser utilizados pelo Brasil.
O que acontece agora?
A partir desta quinta-feira, os volumes de carne bovina brasileira importados pela China acima da cota de 2026 ficam sujeitos à tarifa adicional de 55%.
Na prática, a restrição aumenta a importância das negociações entre Brasil e China e também da busca dos frigoríficos brasileiros por outros mercados consumidores.
Em 2027, uma nova cota de aproximadamente 1,128 milhão de toneladas passa a valer. O mecanismo de salvaguarda continuará em vigor até o fim de 2028, com aumento gradual dos limites estabelecidos para o Brasil.
Mesmo com a restrição chinesa, os números acumulados de 2026 mostram que as exportações brasileiras de carne bovina continuam crescendo, enquanto destinos como Estados Unidos, União Europeia, Rússia e Chile ganham participação nas vendas do setor.
Fontes
- Ministério do Comércio da República Popular da China (MOFCOM)
- Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa)
- Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec)
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC)
