Petróleo supera US$ 105 com tensão entre EUA e Irã; veja impactos para o Brasil

Gabriel Oliveira
Petróleo supera US$ 105 com tensão entre EUA e Irã; veja impactos para o Brasil

O preço do petróleo voltou a disparar nesta quinta-feira (8) em meio ao aumento das tensões geopolíticas no Oriente Médio e aos temores de novas interrupções na oferta global.

O Brent, referência internacional do petróleo, ultrapassou US$ 105 por barril durante as negociações, com alta superior a 5% em determinados momentos do dia. O WTI, referência nos Estados Unidos, também avançou e chegou a ser negociado acima de US$ 91.

O movimento ocorre em um momento de maior preocupação com a oferta mundial de petróleo, envolvendo possíveis novas ações militares dos Estados Unidos contra o Irã, riscos ao transporte marítimo no Oriente Médio e interrupções temporárias na produção americana.

A disparada do barril também colocou mercados internacionais sob pressão e reacendeu uma discussão importante para o Brasil: até onde petróleo mais caro pode afetar Petrobras, combustíveis e inflação?

Por que o petróleo disparou?

Não existe apenas um fator por trás da valorização desta quinta-feira.

Um dos principais elementos é o aumento das tensões entre Estados Unidos e Irã. Informações divulgadas pela imprensa internacional indicam que o governo americano avalia novas ações militares contra o país.

A possibilidade de uma escalada aumenta a percepção de risco porque o Oriente Médio ocupa uma posição central no abastecimento mundial de petróleo.

Isso não significa, entretanto, que uma nova ofensiva americana esteja confirmada. O mercado está incorporando aos preços o risco de que o conflito se intensifique e prejudique ainda mais a oferta ou o transporte da commodity.

Outro ponto de atenção são os ataques contra embarcações petroleiras e os riscos para as principais rotas de transporte da região.

Estreito de Ormuz volta ao centro das atenções

Uma das maiores preocupações do mercado está no Estreito de Ormuz, passagem marítima estratégica entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã.

A região normalmente concentra aproximadamente um quinto do petróleo comercializado globalmente, tornando qualquer interrupção relevante para os preços internacionais.

Dados divulgados nesta quinta-feira indicaram uma redução significativa na circulação de embarcações pela região em meio ao aumento dos riscos de segurança.

Uma interrupção prolongada ou uma redução relevante do fluxo pelo estreito poderia dificultar o transporte de petróleo produzido por alguns dos maiores exportadores mundiais.

Por isso, mesmo antes de uma eventual interrupção total, o aumento do risco já pode ser incorporado aos preços negociados no mercado.

Produção americana também enfrenta interrupções

O Oriente Médio não é o único fator pressionando a oferta.

Nos Estados Unidos, instalações de petróleo no Golfo do México também enfrentaram paralisações preventivas provocadas pelas condições climáticas.

Mais de um quarto da produção da região chegou a ficar temporariamente interrompida.

Embora essas paralisações possam ser revertidas conforme as condições melhorem, elas acrescentam outra fonte de incerteza em um momento no qual o mercado já acompanha com atenção a disponibilidade mundial de petróleo.

A combinação de risco geopolítico, dificuldades no transporte e interrupções de produção ajuda a explicar a forte reação das cotações.

Petróleo mais caro é positivo para a Petrobras?

Para a Petrobras, a valorização internacional do petróleo pode produzir efeitos positivos, especialmente nas atividades de exploração e produção.

Em linhas gerais, preços mais elevados podem aumentar a receita obtida por barril vendido e melhorar a geração de caixa da produção, dependendo dos preços efetivamente realizados pela companhia.

Isso também pode influenciar as expectativas dos investidores para resultados futuros e, consequentemente, o comportamento das ações PETR3 e PETR4.

Mas a relação não é automática.

A Petrobras também atua em refino, comercialização e importação de derivados, além de realizar grandes investimentos. Margens, custos operacionais, câmbio, política comercial e decisões de investimento também influenciam seus resultados.

Portanto, uma alta do Brent não significa automaticamente aumento equivalente no lucro ou nos dividendos da Petrobras.

Para o investidor, o preço do petróleo é uma variável importante na análise da companhia, mas não deve ser observado isoladamente.

Gasolina e diesel vão ficar mais caros?

Para o consumidor brasileiro, essa provavelmente é a principal dúvida provocada pela disparada do petróleo.

A resposta mais correta neste momento é: não necessariamente.

O aumento do Brent eleva as referências internacionais utilizadas no mercado de combustíveis, mas isso não significa que uma alta registrada hoje será automaticamente repassada aos postos brasileiros.

Os preços pagos pelos consumidores dependem de diversos componentes, entre eles a política comercial praticada pelas refinarias, a cotação do dólar, custos de importação e distribuição, tributos e a participação de biocombustíveis na composição dos produtos vendidos no país.

Além disso, oscilações de curto prazo no petróleo podem ser revertidas antes de produzir efeitos relevantes no mercado doméstico.

O cenário muda de importância caso os preços internacionais permaneçam elevados por um período prolongado.

Nesse caso, a pressão sobre os custos dos combustíveis tende a aumentar e pode elevar a discussão sobre eventuais reajustes.

Diesel pode espalhar pressão por outros preços

Entre os combustíveis, o diesel merece atenção especial por sua importância para o transporte brasileiro.

Grande parte das mercadorias consumidas no país circula por rodovias.

Por isso, aumentos persistentes no custo do diesel podem elevar despesas de transporte e logística, afetando desde alimentos até produtos industrializados.

Esse efeito não acontece de forma imediata nem uniforme, mas ajuda a explicar por que movimentos fortes do petróleo são acompanhados também por economistas que analisam inflação.

Petróleo acima de US$ 100 pode pressionar a inflação?

Se a valorização persistir e chegar aos preços domésticos, o petróleo pode se transformar em uma fonte adicional de pressão inflacionária.

Combustíveis afetam diretamente o orçamento das famílias e também aparecem indiretamente nos custos de transporte, produção e distribuição de diferentes produtos.

Um choque prolongado de energia também pode alterar as expectativas de inflação do mercado.

Esse ponto é especialmente relevante porque as expectativas inflacionárias são uma das variáveis consideradas nas decisões sobre juros.

Ainda assim, seria precipitado concluir que a disparada registrada nesta quinta-feira provocará, sozinha, mudanças na trajetória da Selic.

O impacto dependerá principalmente da duração do choque, do comportamento do câmbio e de quanto da alta internacional será efetivamente transmitido para os preços brasileiros.

Bolsas internacionais sentem impacto

A alta do petróleo também trouxe pressão para os mercados internacionais.

Bolsas europeias registraram perdas nesta quinta-feira, enquanto os futuros dos principais índices americanos também operaram em baixa durante parte da sessão.

A preocupação dos investidores não está restrita às empresas que consomem diretamente petróleo.

Um choque prolongado nos preços de energia pode aumentar custos empresariais, reduzir margens de diferentes setores e dificultar o processo de controle da inflação em grandes economias.

Nesse cenário, investidores passam a reconsiderar também suas expectativas para juros e crescimento econômico.

O que acompanhar daqui para frente?

O comportamento do petróleo nas próximas sessões dependerá principalmente da evolução dos riscos relacionados à oferta.

Uma eventual escalada militar envolvendo Estados Unidos e Irã pode aumentar ainda mais a percepção de risco no mercado.

Também será importante acompanhar a circulação de navios pelo Estreito de Ormuz, novos ataques contra embarcações, a normalização da produção no Golfo do México e eventuais medidas tomadas por grandes produtores para compensar interrupções de oferta.

No Brasil, o foco estará sobre o comportamento das ações da Petrobras e sobre possíveis mudanças nas referências utilizadas pelo mercado de combustíveis.

Para o consumidor, mais importante do que uma cotação isolada acima de US$ 105 será observar por quanto tempo o petróleo permanecerá em níveis elevados.

É justamente a persistência do choque que poderá determinar se a crise ficará concentrada nos mercados financeiros ou começará a chegar com mais força à economia brasileira e ao bolso da população.

Fontes: Reuters; dados do mercado internacional de petróleo; informações de mercado divulgadas nesta quinta-feira (8).

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Gabriel Oliveira