A Samsung Electronics prevê um salto de quase nove vezes em seu lucro operacional no terceiro trimestre de 2026, impulsionada pela forte demanda por chips de memória utilizados na expansão da inteligência artificial.
Segundo a prévia de resultados divulgada pela companhia, o lucro operacional deve alcançar 107,4 trilhões de wons, aproximadamente US$ 80 bilhões, crescimento de cerca de 783% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A receita trimestral é estimada em 195 trilhões de wons, também apresentando forte avanço na comparação anual.
Os números ainda são preliminares. A Samsung divulgará o balanço completo do terceiro trimestre no fim de outubro, quando apresentará informações detalhadas sobre o desempenho de cada divisão.
Por trás do salto está uma transformação que vai muito além da fabricante sul-coreana: a corrida global pela inteligência artificial está aumentando rapidamente a demanda por infraestrutura e semicondutores.
Como a inteligência artificial impulsionou a Samsung?
Chatbots e outros serviços de inteligência artificial são apenas a parte mais visível de uma infraestrutura muito maior.
Para treinar e executar modelos avançados de IA, empresas precisam construir e ampliar centros de dados equipados com grandes quantidades de processadores, memória e armazenamento.
É justamente nessa cadeia que a Samsung ocupa uma posição estratégica.
A companhia está entre as maiores fabricantes mundiais de semicondutores e produz diferentes tipos de memória utilizados em servidores, computadores, smartphones e equipamentos de inteligência artificial.
A expansão dos investimentos em data centers aumentou a procura por esses componentes em um momento de oferta limitada, contribuindo para uma forte valorização dos preços das memórias.
Para fabricantes como a Samsung, preços mais altos podem significar receitas e margens maiores.
HBM, DRAM e NAND: os chips por trás do crescimento
A expansão da inteligência artificial colocou diferentes tecnologias de memória no centro da indústria de semicondutores.
Uma delas é a HBM, sigla para High Bandwidth Memory, ou memória de alta largura de banda.
Esse tipo de componente é utilizado junto a processadores avançados empregados em sistemas de inteligência artificial. Sua capacidade de movimentar grandes volumes de dados rapidamente tornou a tecnologia especialmente importante para data centers.
A Samsung também possui forte presença no mercado de DRAM, memória amplamente utilizada em servidores, computadores e outros equipamentos eletrônicos.
Outro segmento relevante é o de memória NAND, utilizada principalmente para armazenamento de dados em produtos como SSDs.
A combinação de demanda crescente por essas tecnologias e limitações na capacidade de produção ajudou a elevar os preços dos componentes e fortalecer os resultados da divisão de semicondutores.
Boom dos chips cria uma situação curiosa dentro da Samsung
O aumento dos preços das memórias beneficia diretamente a divisão da Samsung responsável pela fabricação desses componentes.
Mas existe outro lado dessa história.
A Samsung também é uma das maiores fabricantes mundiais de smartphones, tablets e outros dispositivos eletrônicos, produtos que utilizam justamente chips e memórias em sua fabricação.
Isso cria uma situação incomum: a mesma valorização dos componentes que aumenta os ganhos da divisão de semicondutores também pode elevar os custos de outras áreas da companhia.
O fenômeno mostra como a explosão da demanda por inteligência artificial está provocando efeitos diferentes mesmo dentro de uma única empresa.
Para a Samsung, possuir uma das maiores operações de semicondutores do mundo oferece exposição direta ao crescimento dessa demanda, mas não elimina a pressão que componentes mais caros podem exercer sobre outros produtos.
A corrida da IA vai muito além dos chatbots
Os números da Samsung ajudam a mostrar onde parte do dinheiro movimentado pela inteligência artificial está sendo investido.
Empresas que desenvolvem modelos de IA precisam comprar capacidade computacional. Isso demanda processadores, memória, armazenamento, energia, sistemas de refrigeração e enormes centros de dados.
Por isso, a expansão do setor pode beneficiar empresas que muitas vezes sequer são conhecidas pelo público como desenvolvedoras de inteligência artificial.
Fabricantes de chips e equipamentos para semicondutores, fornecedores de energia, empresas de infraestrutura e operadores de data centers estão entre os segmentos expostos ao crescimento desse mercado.
No caso da Samsung, o aumento da procura por memória transforma investimentos feitos por grandes empresas de tecnologia em demanda pelos componentes produzidos pela companhia sul-coreana.
Crescimento de 783% significa que esse ritmo vai continuar?
Não necessariamente.
A indústria de semicondutores é historicamente marcada por ciclos de expansão e retração.
Quando a demanda cresce mais rapidamente que a capacidade de produção, os preços dos chips tendem a subir e as margens das fabricantes podem aumentar.
Preços elevados, entretanto, também incentivam empresas a investir na ampliação da produção.
Caso a oferta cresça mais rapidamente que a demanda no futuro, os preços podem voltar a cair e reduzir as margens.
Além disso, a continuidade dos investimentos bilionários em infraestrutura de inteligência artificial será fundamental para determinar por quanto tempo a atual demanda permanecerá elevada.
Por isso, o crescimento extraordinário projetado pela Samsung para um trimestre não deve ser interpretado como uma taxa sustentável indefinidamente.
Por que as ações podem cair mesmo com lucro recorde?
Outro aspecto chama atenção: resultados empresariais extraordinários não necessariamente provocam valorização imediata das ações.
Os papéis da Samsung negociados na Coreia do Sul chegaram a apresentar queda após a divulgação da prévia, apesar da forte expansão projetada para o lucro.
Isso acontece porque o mercado financeiro não avalia apenas quanto uma empresa ganhou.
O preço de uma ação também incorpora as expectativas que os investidores já tinham antes da divulgação dos números.
Se o mercado esperava resultados ainda maiores ou passa a enxergar riscos para os próximos trimestres, as ações podem cair mesmo quando a empresa apresenta crescimento expressivo.
No caso da Samsung, investidores também acompanham a sustentabilidade dos preços elevados das memórias e a capacidade da companhia de competir nos segmentos mais avançados de chips utilizados em inteligência artificial.
O boom da IA pode deixar celulares e computadores mais caros?
A forte valorização das memórias também levanta uma questão para os consumidores.
Se componentes importantes ficam mais caros, fabricantes de smartphones, computadores e outros equipamentos eletrônicos podem enfrentar custos maiores de produção.
Isso, porém, não significa automaticamente aumento dos preços nas lojas.
Empresas podem absorver parte dos custos, renegociar contratos, alterar componentes ou reduzir margens. Concorrência, estoques e estratégia comercial também influenciam os preços finais.
No Brasil, existe ainda uma variável especialmente importante: o câmbio.
Como muitos componentes eletrônicos são negociados internacionalmente em dólar, a cotação da moeda americana pode amplificar ou reduzir os efeitos das mudanças de preços no exterior.
Portanto, o boom das memórias merece atenção, mas ainda é cedo para concluir que celulares e computadores necessariamente ficarão mais caros por causa dele.
O que observar agora?
A próxima etapa será a divulgação dos resultados completos do terceiro trimestre pela Samsung.
O balanço detalhado permitirá identificar quanto cada divisão contribuiu para o desempenho da companhia e quais são as expectativas da administração para os próximos meses.
O mercado também continuará acompanhando os preços das memórias, a produção de chips HBM e os investimentos das grandes empresas de tecnologia em infraestrutura de inteligência artificial.
Para a indústria, a questão central será descobrir por quanto tempo a demanda continuará crescendo mais rapidamente que a oferta.
Os números preliminares da Samsung mostram, por enquanto, uma consequência concreta da corrida global pela IA: a disputa por capacidade computacional já está movimentando dezenas de bilhões de dólares muito além das empresas que desenvolvem os modelos de inteligência artificial conhecidos pelo público.
Fontes: Samsung Electronics; Reuters; informações de mercado sobre a indústria global de semicondutores.

