Se você já abriu o home broker e viu duas ou três versões da mesma empresa — tipo ITUB3, ITUB4 e às vezes até uma terceira opção — provavelmente ficou na dúvida sobre qual comprar. Essa confusão é normal: no Brasil, ao contrário da maioria dos mercados do mundo, o investidor precisa escolher entre diferentes classes de ações da mesma empresa antes de investir.
Neste guia você vai entender exatamente o que muda entre ações ordinárias (ON), preferenciais (PN) e Units, o que aquele número no final do ticker significa, e qual tipo faz mais sentido dependendo do seu objetivo como investidor.
Resposta direta: Ações ON (final 3) dão direito a voto nas assembleias da empresa. Ações PN (final 4) não dão voto, mas têm prioridade no recebimento de dividendos. Units (final 11) são “pacotes” que combinam ON e PN em um único ativo. Para a maioria dos investidores pessoa física focados em renda passiva, as PN costumam ser a escolha mais comum — mas isso não é uma regra fixa.
O que são ações ordinárias (ON)?
Ações ordinárias são o tipo de ação que carrega o direito de voto nas assembleias da empresa. Quem tem ações ON pode votar em decisões como eleição do conselho de administração, aprovação de fusões e aquisições, e mudanças no estatuto social.
Na prática, para o pequeno investidor, esse direito de voto tem pouco peso real: se você tem 200 ações ON de um banco que tem bilhões de ações em circulação, seu voto individual não muda o rumo da empresa. Mas as ações ON carregam uma proteção importante — o tag along.
Tag along é a garantia de que, se a empresa for vendida e o controle mudar de mãos, os acionistas minoritários com ações ON recebem no mínimo 80% do valor pago por ação ao antigo controlador. É uma proteção que existe por lei para as ordinárias — e não existe automaticamente para as preferenciais, embora empresas do Novo Mercado da B3 estendam esse benefício para todas as classes.
No ticker, ações ON terminam com o número 3. Exemplos: PETR3 (Petrobras), ITUB3 (Itaú Unibanco), WEGE3 (WEG).
O que são ações preferenciais (PN)?
Ações preferenciais não dão direito a voto (ou dão voto restrito, dependendo do estatuto da empresa), mas em compensação oferecem prioridade na distribuição de dividendos. Isso significa que, quando a empresa decide pagar proventos, os acionistas PN costumam receber primeiro ou receber um valor por ação até 10% maior do que os acionistas ON, dependendo do que está definido no estatuto.
Essa prioridade também vale em caso de falência ou liquidação da empresa: os acionistas PN ficam na frente dos ON na fila de recebimento dos ativos remanescentes (embora atrás de credores, funcionários e o fisco).
No ticker, ações preferenciais terminam com o número 4. Exemplos: PETR4, ITUB4, BBDC4 (Bradesco).
Ações preferenciais sempre pagam mais dividendos que as ordinárias?
Aqui está um dos mitos mais comuns entre iniciantes: muita gente escolhe PN só porque a palavra remete a “preferência” e assume automaticamente que vai receber mais dividendo. Na prática, a diferença no valor pago por ação entre ON e PN costuma ser pequena — muitas vezes o estatuto garante apenas uma prioridade temporal no pagamento, não necessariamente um valor maior.
O que realmente importa antes de decidir com base em dividendos é olhar o estatuto social da empresa (disponível no Formulário de Referência da CVM) e verificar exatamente qual é a vantagem oferecida à classe PN — se é valor maior, prioridade de pagamento, ou ambos.
O que são Units e por que o ticker termina em 11?
Units não são exatamente um terceiro tipo de ação — são um “pacote” que agrupa mais de uma classe de valores mobiliários da mesma empresa, geralmente uma combinação de ações ON e PN, negociadas como um único ativo na bolsa.
Um exemplo comum: uma Unit pode ser formada por 1 ação ON + 2 ações PN da mesma companhia. Ao comprar essa Unit, você adquire as três ações de uma vez, sob um único código.
Units geralmente são criadas para resolver um problema de liquidez. Quando uma empresa tem ações ON e PN separadas, mas nenhuma das duas classes tem volume de negociação relevante, a solução é agrupar tudo em uma Unit — e o mercado migra a negociação para ela. É o caso de empresas como Taesa (TAEE11) e Alupar (ALUP11): praticamente ninguém negocia as ações separadas (TAEE3, TAEE4, ALUP3, ALUP4), mas sim as Units.
No ticker, Units terminam com o número 11. Exemplos: TAEE11 (Taesa), SANB11 (Santander Brasil), BPAC11 (BTG Pactual), SAPR11 (Sanepar).
Comparativo direto: ON x PN x Units
| Característica | ON (final 3) | PN (final 4) | Units (final 11) |
|---|---|---|---|
| Direito a voto | Sim, integral | Geralmente não (ou restrito) | Parcial, proporcional à composição |
| Prioridade em dividendos | Não | Sim | Depende da composição |
| Tag along garantido por lei | Sim (mínimo 80%) | Não (exceto Novo Mercado) | Depende do estatuto |
| Liquidez típica | Variável | Geralmente maior | Alta (é o objetivo da Unit) |
| Indicado para | Quem valoriza governança e voz na empresa | Quem foca em renda passiva (dividendos) | Quem quer equilíbrio entre voto e renda |
Exemplo prático: simulando dividendos em ON vs PN
Imagine uma empresa fictícia que decide distribuir R$ 1,00 por ação ordinária e, por definição do estatuto, 10% a mais por ação preferencial — ou seja, R$ 1,10 por PN. Se você tem 100 ações ON, recebe R$ 100,00. Se tivesse 100 ações PN, receberia R$ 110,00 — uma diferença de R$ 10,00, ou 10% a mais, só pela classe escolhida, mantendo o mesmo valor investido.
Esse tipo de vantagem, multiplicado ao longo de anos de reinvestimento, faz diferença real na formação de patrimônio — mas repare que a vantagem não vem “de graça”: ela existe porque, em troca, você abre mão do direito de voto e, em muitos casos, de parte da proteção do tag along.
Como saber qual tipo de ação uma empresa oferece?
Para descobrir se uma empresa tem ON, PN, Units, ou todas as classes, você pode:
- Olhar o final do ticker na sua corretora (3 = ON, 4 = PN, 11 = Unit)
- Consultar o site de Relações com Investidores (RI) da empresa
- Verificar o Formulário de Referência da companhia, disponível no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que detalha a estrutura acionária e os direitos de cada classe
- Consultar a página da empresa no site da B3, a bolsa de valores brasileira
Qual tipo de ação é melhor para quem quer viver de dividendos?
Se o seu objetivo é formar uma carteira de renda passiva — receber dividendos recorrentes para complementar ou substituir sua renda no futuro — as ações preferenciais costumam ser a escolha mais natural para a maioria dos investidores pessoa física, justamente pela prioridade e, em muitos casos, valor mais alto de provento.
Isso não significa ignorar completamente as ON. Empresas listadas no Novo Mercado da B3, por exemplo, emitem apenas ações ON com tag along de 100% para todos os acionistas — nesse caso, a diferença entre ON e PN simplesmente não existe, porque só há uma classe.
Já as Units fazem sentido quando você quer equilibrar renda com uma pitada de governança, ou quando a própria liquidez do mercado te empurra para elas — como no caso de Taesa e Santander, onde praticamente todo o volume de negociação está concentrado na Unit.
Erros comuns ao escolher entre ON, PN e Units
- Achar que PN é sempre melhor: a diferença de dividendo pode ser pequena ou inexistente, dependendo do estatuto — sempre confira antes de assumir.
- Ignorar o tag along: em empresas fora do Novo Mercado, isso pode significar diferença relevante de valor recebido em caso de venda do controle.
- Comprar pela liquidez errada: se a ação ON de uma empresa tem pouquíssimo volume negociado, pode ser difícil vender quando você precisar, mesmo que o preço pareça atrativo.
- Não checar o histórico de pagamento: uma empresa pode ter estatuto favorável à PN, mas histórico irregular de dividendos — sempre olhe os últimos anos antes de decidir.
Próximo passo: montando sua estratégia
Agora que você entende a diferença entre ON, PN e Units, o próximo passo natural é entender como, na prática, você ganha dinheiro com ações — se é só pela valorização do preço, pelos dividendos, ou pelos dois ao mesmo tempo. Esse é o tema do nosso próximo guia dentro deste cluster sobre investir em ações.
Se você ainda está organizando sua reserva de emergência antes de partir para renda variável, vale revisar primeiro o comparativo entre investimentos no Nubank e no Inter ou como funciona o passo a passo para investir R$ 100 por mês em Tesouro e CDB — a base de uma reserva sólida vem antes das ações.
Para quem quer se aprofundar de forma estruturada em análise de empresas e investimentos, também vale considerar essa leitura recomendada sobre finanças pessoais, com obras que ajudam a construir uma base sólida antes de montar sua carteira de ações.
Perguntas frequentes
Posso ter ON e PN da mesma empresa na carteira?
Sim. Muitos investidores combinam as duas classes, especialmente quando querem parte da proteção de tag along das ON e parte da prioridade em dividendos das PN.
Toda empresa tem as três classes (ON, PN, Unit)?
Não. Empresas do Novo Mercado da B3, por exemplo, emitem só ações ON. Outras têm apenas ON e PN, sem Unit.
Unit é mais cara que a ação separada?
O preço da Unit reflete a soma proporcional das ações que a compõem — não existe “desconto” ou “ágio” por comprar em pacote, apenas a conveniência da negociação unificada.
O número final do ticker pode mudar?
Sim, em casos raros de reestruturação societária, mas isso não é comum no dia a dia do investidor.
