As ações da Braskem (BRKM5) tiveram um dia de montanha-russa nesta quinta-feira (27). Pela manhã, dispararam até 19,03% após a Petrobras (PETR4) ampliar significativamente o limite de crédito comercial concedido à petroquímica, que está em processo de recuperação extrajudicial. Mas o alívio durou pouco: ao longo do dia, um novo processo bilionário voltou a pressionar o papel.
Resposta direta: A Petrobras ampliou o limite de crédito comercial com a Braskem de R$ 350 milhões para R$ 2,35 bilhões, destinado à compra de matérias-primas. A notícia fez as ações dispararem até 19% na manhã de quinta-feira, mas os ganhos foram parcialmente corroídos ao longo do dia após a Defensoria Pública da União (DPU) protocolar cobrança de R$ 5 bilhões relacionada à tragédia de Maceió.
O que a Petrobras anunciou exatamente?
A Petrobras ampliou o limite de crédito comercial concedido à Braskem de R$ 350 milhões para R$ 2,35 bilhões — um aumento de R$ 2 bilhões. Os recursos são destinados especificamente à aquisição de matérias-primas (como nafta) fornecidas pela estatal à petroquímica, com prazo de pagamento de até 30 dias e vigência até 31 de dezembro de 2026.
A operação veio acompanhada de garantias relevantes para a Petrobras: cessão fiduciária de recebíveis (direito sobre cerca de R$ 1 bilhão por mês em créditos de clientes da Braskem), uma conta vinculada com retenção mínima de R$ 300 milhões, e cessão fiduciária de créditos tributários relacionados a um mandado de segurança sobre a Cide. A Petrobras também se resguardou com cláusulas que permitem suspender o crédito em caso de inadimplência ou outros problemas na recuperação extrajudicial da Braskem.
Esse crédito significa que a dívida da Braskem diminuiu?
Não. É importante entender essa distinção: trata-se de crédito comercial, ou seja, um prazo maior para pagar pela matéria-prima que a Braskem já compra normalmente da Petrobras — não é dinheiro novo injetado na empresa, nem reduz em nada os aproximadamente US$ 10,9 bilhões em dívidas que a companhia está tentando renegociar em sua recuperação extrajudicial, que já detalhamos em outro artigo aqui no blog.
O que essa ampliação faz, na prática, é aliviar a pressão de curto prazo sobre o caixa da empresa, garantindo que ela continue conseguindo comprar insumos essenciais para manter a produção rodando normalmente enquanto o processo de reestruturação da dívida segue seu curso — que ainda depende da aprovação de mais da metade de cada classe de credores.
Por que o alívio da manhã não durou o dia inteiro?
Enquanto o mercado ainda comemorava a notícia da Petrobras, a Defensoria Pública da União (DPU) protocolou uma cobrança de R$ 5 bilhões contra a Braskem, relacionada aos danos causados pela extração de sal-gema em Maceió (Alagoas) — o mesmo desastre que já levou a empresa a provisionar R$ 15,6 bilhões para lidar com os efeitos do afundamento de solo na região.
Esse novo processo reforça um ponto importante: mesmo com sinais pontuais de alívio financeiro, a Braskem carrega passivos de longo prazo — tanto financeiros quanto ambientais/sociais — que continuam pesando sobre a empresa e que não desaparecem com uma única notícia positiva.
Que lição isso reforça para o investidor?
O caso da Braskem nesta quinta-feira é um ótimo exemplo prático do que já discutimos no artigo sobre erros comuns de quem começa a investir em ações: reagir a uma única notícia — seja ela positiva ou negativa — sem entender o quadro completo de uma empresa em dificuldade financeira é um dos comportamentos mais arriscados para quem está começando.
Uma alta de quase 20% num único dia pode parecer um convite tentador para “entrar na ação antes que suba mais”, mas o desfecho do próprio dia mostra como esse tipo de papel pode reverter rapidamente diante de qualquer notícia negativa nova — e a Braskem ainda tem um processo de recuperação extrajudicial em aberto, com desfecho incerto, além de passivos bilionários relacionados à tragédia de Maceió que seguem sem solução definitiva.
O que vem a seguir?
O processo de recuperação extrajudicial da Braskem segue em andamento, com a empresa ainda precisando conquistar a adesão de mais credores para viabilizar a homologação judicial do plano. O desdobramento da nova cobrança da DPU relacionada a Maceió também deve continuar sendo acompanhado, já que pode adicionar mais incerteza a um quadro já complexo. Continuaremos cobrindo os próximos capítulos dessa história aqui no blog.
