Casas Bahia Fecha 298 Lojas e Pode Demitir Até 3 Mil Funcionários

O Grupo Casas Bahia (BHIA3) fechou 298 lojas entre quinta (13) e sexta-feira (14) de agosto, o equivalente a 28,7% de sua rede no Brasil. Junto com o fechamento das unidades, a empresa já demitiu cerca de 1,9 mil funcionários, com estimativas de que o corte total possa chegar a 3 mil pessoas. Entenda o que está por trás dessa que é uma das maiores reduções de estrutura da varejista em anos.

Resposta direta: A Casas Bahia fechou 298 das pouco mais de mil lojas que operava no Brasil e demitiu cerca de 1,9 mil funcionários, com o total podendo chegar a 3 mil. A medida faz parte de um plano de redução de despesas após a empresa acumular prejuízo de R$ 1,06 bilhão só no primeiro trimestre de 2026. O balanço do segundo trimestre, adiado duas vezes, deve ser divulgado nesta segunda-feira (17).

Quantas lojas a Casas Bahia fechou?

Foram 298 unidades fechadas de uma rede que somava pouco mais de mil lojas no início do ano — uma redução de 28,7% de uma só vez. Para se ter ideia da dimensão desse corte: ao longo de 2025, a empresa havia fechado apenas 26 lojas no ano inteiro. O ritmo atual é, portanto, muito mais acelerado do que o histórico recente de ajustes graduais da companhia.

Sobre as demissões, cerca de 600 funcionários foram desligados na quinta-feira (13), com mais 1,3 mil a 1,4 mil cortes na sexta (14) — total de aproximadamente 1,9 mil pessoas já confirmadas, com uma fonte ouvida pelo Valor Econômico estimando que o número final possa chegar a 3 mil, cerca de 6,7% de toda a base de funcionários da empresa.

Por que a Casas Bahia tomou essa decisão?

A medida está diretamente ligada à situação financeira da empresa. No primeiro trimestre de 2026, a Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 1,06 bilhão — um salto de 160% frente ao prejuízo de R$ 408 milhões do mesmo período de 2025. Segundo a própria varejista, a piora reflete principalmente as pressões do cenário de juros elevados no país, que encarecem o custo da dívida da empresa.

Vale destacar que nem tudo é negativo: a operação online da empresa tem mostrado sinais de melhora, com o volume bruto de mercadoria (GMV) consolidado avançando 5% na comparação anual no 1T26, puxado por parcerias com grandes marketplaces como Mercado Livre, Amazon e Shopee. O problema não está na operação em si, mas no peso da dívida e das despesas financeiras sobre o resultado final.

Como o mercado reagiu? A ação BHIA3 despencou

O reflexo dessa crise na bolsa é expressivo. A ação BHIA3 fechou a semana cotada a R$ 0,66, acumulando queda de -77,85% nos últimos 12 meses. A ação começou 2026 negociada perto de R$ 3,15 — na prática, quem tinha R$ 10.000 investidos em BHIA3 no início do ano teria hoje pouco mais de R$ 2.200, considerando apenas a variação de preço.

O valor de mercado da companhia hoje gira em torno de R$ 669 a 821 milhões — uma fração pequena para uma empresa que fatura quase R$ 30 bilhões por ano, o que dá a exata medida de como o mercado precifica o risco financeiro da empresa atualmente.

O que vem a seguir?

O balanço do segundo trimestre de 2026 já foi adiado duas vezes — inicialmente marcado para quarta-feira (12), depois remarcado para sexta (14), e agora previsto para a manhã de segunda-feira (17), junto com a teleconferência com analistas e investidores. É nesse momento que a empresa deve detalhar os custos da reestruturação (incluindo despesas com as rescisões trabalhistas) e a economia projetada com a redução de despesas operacionais. Até a publicação desta matéria, a companhia não havia se manifestado oficialmente sobre os motivos dos adiamentos.

Como Identificar uma Ação em Risco Antes de Investir

A boa notícia é que os números da Casas Bahia não mentem — e servem como um estudo de caso real de como os indicadores fundamentalistas conseguem sinalizar problemas antes mesmo de uma notícia como essa estourar.

Hoje, a BHIA3 apresenta um P/L negativo de -0,18. Como explicamos no nosso guia de análise fundamentalista, o P/L (preço sobre lucro) mostra quantos anos levaria para reaver o investimento com o lucro da empresa — mas esse cálculo só faz sentido quando há lucro. Um P/L negativo é, na prática, um alerta vermelho: significa que a empresa está dando prejuízo, não lucro.

O ROE está em -204,95% — um número extremo que mostra que a empresa não está apenas deixando de gerar retorno sobre o patrimônio dos acionistas, mas destruindo valor de forma acelerada. Para efeito de comparação, lembre-se que buscamos ROE positivo e, idealmente, acima de 15% ao ano como sinal de eficiência — um ROE profundamente negativo é o oposto extremo disso.

Já a dívida líquida sobre EBITDA está em 2,64 — um valor que, isoladamente, ainda estaria dentro de uma faixa considerada administrável (lembrando que discutimos que valores acima de 3-4 merecem atenção redobrada). O problema da Casas Bahia não está tanto no tamanho da dívida em si, mas no custo dela: com a Selic em patamar elevado, o peso das despesas financeiras sobre um resultado operacional ainda frágil é o que tem corroído o lucro trimestre após trimestre.

A lição prática aqui não é “nunca invista em uma empresa com indicadores ruins” — investidores experientes às vezes buscam justamente empresas em dificuldade, apostando numa recuperação (a chamada estratégia de “turnaround”). A lição é: se você for fazer essa aposta, faça-a conscientemente, sabendo que está assumindo um risco elevado, e não porque “a ação caiu muito e parece barata”. Preço baixo não é sinônimo de oportunidade — às vezes é só o reflexo justo de uma empresa em real dificuldade financeira.

Se você ainda não leu, vale revisar nosso guia completo sobre como analisar uma ação antes de comprar, com os 5 indicadores essenciais explicados em detalhe.