Governo zera impostos federais da gasolina por 30 dias; preço vai cair?

Gabriel Oliveira
Governo zera impostos federais da gasolina por 30 dias; preço vai cair?

O governo federal ampliou a desoneração dos tributos federais sobre a gasolina por 30 dias em uma tentativa de reduzir os efeitos da forte valorização internacional do petróleo sobre os preços dos combustíveis no Brasil.

Com a medida, a desoneração federal passou de R$ 0,63 para R$ 0,89 por litro de gasolina A, segundo o governo.

Isso significa que o benefício tributário adicional é de aproximadamente R$ 0,26 por litro, e não de R$ 0,89.

A medida entrou em vigor no sábado (10) e integra um conjunto de ações anunciado pelo governo para tentar conter a pressão provocada pela alta internacional dos combustíveis.

Para o consumidor, porém, existe uma questão fundamental: a redução dos impostos significa que a gasolina ficará R$ 0,26 mais barata nos postos?

A resposta é: não necessariamente.

Por que o governo zerou os impostos federais da gasolina?

A decisão ocorre após uma forte valorização internacional do petróleo provocada pelas tensões geopolíticas e pelos riscos de interrupções na oferta mundial.

O Mão na Grana mostrou recentemente que o petróleo Brent ultrapassou US$ 105 por barril, aumentando a preocupação com possíveis efeitos sobre combustíveis, inflação e atividade econômica.

Como o petróleo é uma das principais matérias-primas utilizadas na produção de combustíveis, uma valorização prolongada da commodity pode pressionar os custos em diferentes países.

No Brasil, o governo decidiu ampliar temporariamente a desoneração tributária para tentar amortecer parte desse impacto.

A medida terá duração inicial de 30 dias.

Gasolina vai ficar R$ 0,26 mais barata?

Não existe garantia de uma redução de R$ 0,26 no preço encontrado pelo consumidor nas bombas.

O valor corresponde à desoneração federal adicional por litro de gasolina A.

A gasolina A é produzida pelas refinarias e posteriormente recebe a mistura obrigatória de etanol anidro antes de chegar aos postos como gasolina C, utilizada pelos consumidores.

Além disso, o preço final depende de diversos componentes.

Entre eles estão o preço na origem, tributos, custos de distribuição e transporte e margens comerciais ao longo da cadeia.

Por isso, mesmo que exista uma redução tributária na origem, o tamanho e a velocidade do repasse para as bombas podem variar.

Também existe outro fator importante: o próprio preço internacional do petróleo.

Se a commodity continuar subindo, parte ou até todo o alívio proporcionado pela redução tributária poderá ser absorvido pela pressão dos custos.

Portanto, a medida reduz uma parcela da carga tributária, mas não estabelece um preço obrigatório para os postos.

Quanto o motorista poderia economizar?

É possível dimensionar o benefício com uma simulação, desde que o cálculo não seja interpretado como previsão do preço final.

Caso os R$ 0,26 adicionais por litro fossem integralmente refletidos nas bombas, um motorista que abastecesse 40 litros teria uma economia aproximada de:

40 litros × R$ 0,26 = R$ 10,40

Em um abastecimento de 50 litros:

50 litros × R$ 0,26 = R$ 13

Os valores servem apenas para mostrar a dimensão da desoneração adicional.

A economia efetiva poderá ser maior, menor ou até inexistente dependendo do comportamento dos demais componentes que formam o preço do combustível.

Por isso, o consumidor deverá acompanhar os preços praticados nos postos nos próximos dias para verificar se haverá repasse.

Etanol também permanece desonerado

O pacote não envolve apenas a gasolina.

O governo manteve a desoneração federal de aproximadamente R$ 0,19 por litro sobre o etanol.

A decisão é relevante porque gasolina e etanol competem diretamente entre os consumidores que possuem veículos flex.

Uma mudança tributária concentrada exclusivamente em um dos combustíveis poderia alterar artificialmente essa relação de preços.

Com a manutenção da desoneração do etanol, o governo procura preservar parte da competitividade entre os dois produtos durante o período da medida.

Diesel também entrou no pacote

O governo anunciou ainda medidas relacionadas ao diesel, especialmente diante da pressão provocada pelo petróleo internacional.

O impacto econômico do diesel vai além dos motoristas que utilizam diretamente esse combustível.

Grande parte do transporte de mercadorias no Brasil é realizada por rodovias.

Caminhões transportam alimentos, produtos industriais, matérias-primas e uma parcela significativa dos bens consumidos no país.

Quando o diesel sobe de maneira expressiva, empresas podem enfrentar custos logísticos maiores.

Dependendo da intensidade e da duração do movimento, parte desses custos pode chegar aos preços finais de produtos e serviços.

Por isso, medidas destinadas a reduzir a pressão sobre o diesel também possuem potencial impacto sobre a inflação.

Quanto a desoneração vai custar aos cofres públicos?

Reduzir impostos também significa abrir mão de arrecadação.

Segundo estimativa divulgada pelo governo, o conjunto de medidas relacionadas aos combustíveis terá impacto fiscal de aproximadamente R$ 5,2 bilhões durante os 30 dias.

Esse é um dos principais custos da estratégia.

Ao diminuir a tributação, o governo tenta reduzir a parcela do choque internacional do petróleo que chega aos consumidores e às empresas.

Em contrapartida, a União arrecada menos durante o período.

Na prática, existe uma troca: menor pressão tributária sobre os combustíveis agora em troca de menor arrecadação federal.

O impacto final para as contas públicas dependerá também da duração das medidas e de eventuais decisões de prorrogação.

Gasolina mais barata pode ajudar a inflação?

A redução tributária pode diminuir uma fonte de pressão sobre os preços, mas não significa que a inflação necessariamente cairá.

Combustíveis afetam a economia de duas maneiras.

A primeira é direta: gasolina, etanol e diesel fazem parte das despesas de famílias e empresas.

A segunda é indireta: combustíveis influenciam custos de transporte e logística, que podem se espalhar por diferentes setores.

A medida também chega em um momento em que a inflação brasileira voltou a acelerar.

O IPCA avançou 0,82% em setembro e chegou a 4,58% em 12 meses, conforme mostrou o Mão na Grana na divulgação do último índice de inflação.

Existe, porém, uma diferença importante de datas.

A nova desoneração entrou em vigor em outubro. Portanto, ela não teve qualquer influência sobre o IPCA de setembro.

Eventuais efeitos sobre os preços começarão a aparecer apenas nos indicadores seguintes.

Por que a redução de impostos vale apenas por 30 dias?

A duração temporária permite ao governo acompanhar a evolução do choque internacional.

Durante esse período, diferentes fatores poderão mudar.

O petróleo pode recuar caso as tensões geopolíticas diminuam, mas também pode continuar subindo caso os riscos à oferta aumentem.

O governo também poderá avaliar o comportamento dos preços domésticos e o custo fiscal da desoneração.

Ao final dos 30 dias, será necessário decidir se a medida será encerrada, modificada ou prorrogada.

Uma eventual extensão também significaria prolongar a perda de arrecadação associada ao benefício.

O que o consumidor deve acompanhar agora?

Para quem abastece o carro, o principal indicador será o preço efetivamente praticado nos postos.

Uma redução tributária não significa necessariamente queda imediata e uniforme em todo o país.

Os preços podem variar entre estados, cidades e até entre postos localizados no mesmo município.

Outro fator importante será a cotação internacional do petróleo.

Caso a commodity continue valorizada, a pressão externa poderá consumir parte do alívio tributário.

Também será necessário acompanhar eventuais mudanças nos preços praticados pelas refinarias e as decisões do governo quando os 30 dias da medida chegarem ao fim.

Por enquanto, a desoneração oferece um amortecedor contra a alta dos combustíveis.

Quanto desse benefício chegará efetivamente ao bolso do motorista dependerá do comportamento dos preços ao longo de toda a cadeia.

Fontes: Ministério da Fazenda; Governo Federal; Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

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Gabriel Oliveira