O Itaú Unibanco apresentou à Polícia Federal documentos em que aponta fortes oscilações nos registros de operações de risco sacado da Americanas no Sistema de Informações de Créditos (SCR), administrado pelo Banco Central, durante os anos anteriores à revelação da fraude contábil na varejista.
Segundo informações apresentadas pelo banco e divulgadas neste domingo (18), os valores consolidados registrados no sistema chegaram a cair de R$ 3,7 bilhões em dezembro de 2016 para R$ 160 milhões um ano depois. Em outro período, entre dezembro de 2019 e agosto de 2020, essas operações teriam deixado de aparecer nos registros consolidados consultados pelo Itaú.
Em setembro de 2022, poucos meses antes de o escândalo vir a público, o SCR mostrava aproximadamente R$ 17 bilhões em operações de risco sacado da Americanas, segundo os documentos apresentados pelo banco.
O Itaú argumenta que as inconsistências dificultaram a identificação do verdadeiro tamanho das operações financeiras da companhia.
O Banco Central contesta essa interpretação.
A autarquia afirma não ter identificado problemas no funcionamento do SCR que impedissem o registro correto das operações e destaca que as próprias instituições financeiras são responsáveis pela qualidade, integridade e atualização dos dados enviados ao sistema.
Não há, até o momento, uma conclusão pública das investigações estabelecendo que o sistema do Banco Central tenha falhado.
Registros de risco sacado tiveram fortes oscilações
Os documentos apresentados pelo Itaú mostram uma trajetória irregular nos saldos consolidados de risco sacado atribuídos à Americanas no SCR.
Veja alguns dos números apontados pelo banco:
| Período | Risco sacado registrado no SCR |
|---|---|
| Dezembro de 2016 | R$ 3,7 bilhões |
| Dezembro de 2017 | R$ 160 milhões |
| Dezembro de 2019 a agosto de 2020 | Sem registros |
| Dezembro de 2020 | R$ 10,4 bilhões |
| Setembro de 2022 | R$ 17 bilhões |
As oscilações fazem parte dos argumentos apresentados pelo Itaú às autoridades no contexto das investigações relacionadas ao caso Americanas.
Isso não significa, por si só, que todos esses números estejam comprovadamente errados.
Uma das questões ainda em investigação é justamente entender por que os registros apresentaram essas variações e qual era a responsabilidade das diferentes instituições envolvidas no envio das informações.
O que é o SCR do Banco Central?
O Sistema de Informações de Créditos (SCR) é uma base administrada pelo Banco Central que reúne informações sobre operações de crédito realizadas no sistema financeiro.
Os dados são enviados pelas próprias instituições financeiras.
Na prática, o sistema permite reunir informações sobre a exposição de pessoas e empresas a diferentes tipos de crédito.
De maneira simplificada:
instituição concede ou registra uma operação de crédito → envia as informações → dados entram no SCR → informações são consolidadas e podem ser consultadas nos termos das regras do sistema.
Para bancos e outras instituições autorizadas, essas informações ajudam na análise de risco e na compreensão do endividamento de clientes.
É justamente por isso que a discussão sobre os registros da Americanas se tornou relevante para as investigações.
O que é risco sacado?
Risco sacado é uma operação financeira bastante utilizada no relacionamento entre empresas, fornecedores e bancos.
Imagine que um fornecedor venda mercadorias para uma grande varejista e tenha R$ 1 milhão para receber daqui a determinado período.
Em vez de esperar o vencimento, o fornecedor pode receber antecipadamente por meio de uma instituição financeira.
De forma simplificada:
fornecedor vende para a empresa
↓
banco antecipa o pagamento ao fornecedor
↓
empresa posteriormente paga o banco
A operação em si é legítima e utilizada por diversas companhias.
O problema no caso Americanas envolve a forma como essas obrigações teriam sido contabilizadas e apresentadas nas demonstrações financeiras da companhia.
Quando as inconsistências vieram a público em janeiro de 2023, a Americanas inicialmente revelou aproximadamente R$ 20 bilhões em inconsistências contábeis, grande parte relacionada a operações desse tipo.
Americanas teria informado R$ 4,7 bilhões enquanto SCR mostrava R$ 17 bilhões
Um episódio de 2022 aparece com destaque nos documentos apresentados pelo Itaú.
Segundo o banco, executivos começaram a questionar internamente os números da Americanas depois de identificar uma relação considerada incomum entre os valores apresentados pela companhia e a exposição do próprio Itaú.
A Americanas reportava aproximadamente R$ 5 bilhões em fornecedores, enquanto o Itaú estimava ter cerca de R$ 3,8 bilhões em operações de risco sacado relacionadas à empresa.
Isso indicaria que apenas o Itaú representaria uma parcela muito elevada dessas operações.
O banco então procurou a Americanas em busca de esclarecimentos.
Segundo os documentos apresentados pelo Itaú, a companhia informou que o banco possuía aproximadamente 75% das operações de risco sacado, correspondentes a cerca de R$ 3,5 bilhões, e que o total dessas operações seria de aproximadamente:
R$ 4,7 bilhões
Ao mesmo tempo, segundo o Itaú, o SCR mostrava aproximadamente:
R$ 17 bilhões
A diferença entre os dois números chega a aproximadamente:
R$ 12,3 bilhões
O contraste é um dos elementos utilizados pelo Itaú para sustentar que as informações disponíveis não permitiam uma leitura clara da situação financeira da Americanas.
Os valores fazem parte da argumentação apresentada pelo banco e não representam uma conclusão definitiva das autoridades sobre responsabilidades no caso.
O que o Itaú alega?
O Itaú sustenta que informou corretamente ao Banco Central as operações de risco sacado pelas quais era responsável.
Segundo o banco, os saldos consolidados disponíveis no SCR apresentaram inconsistências ao longo dos anos, o que teria dificultado uma avaliação adequada do endividamento da Americanas.
O Itaú também afirma que:
- identificou anomalias nos números da varejista em 2022;
- procurou a companhia para obter esclarecimentos;
- recebeu informações que posteriormente considerou falsas;
- não aceitou pedidos da antiga administração para retirar referências a risco sacado de cartas de auditoria;
- reduziu sua exposição à Americanas antes da revelação pública das inconsistências contábeis.
O banco afirma ter reduzido sua exposição à companhia em mais de R$ 2,6 bilhões antes de janeiro de 2023.
Também afirma ter sofrido perdas superiores a R$ 3 bilhões relacionadas ao caso.
Essas informações representam a posição apresentada pelo próprio Itaú no contexto das investigações.
Banco Central nega falha no SCR
O Banco Central contesta a interpretação de que os registros apresentados indiquem uma falha de funcionamento do SCR.
Segundo a autarquia, não foram identificados problemas no sistema que impedissem o registro adequado das operações.
O BC também destaca que as informações existentes no SCR são fornecidas pelas instituições financeiras.
Cabe às instituições remetentes garantir a qualidade, correção e atualização dos dados enviados.
O fornecimento de informações incorretas pode resultar em responsabilização e sanções.
Assim, as posições apresentadas até agora podem ser resumidas da seguinte maneira:
| Itaú | Banco Central |
|---|---|
| Aponta inconsistências nos saldos consolidados | Nega falha no funcionamento do SCR |
| Afirma ter enviado corretamente seus próprios dados | Diz que instituições respondem pelos dados enviados |
| Diz que oscilações dificultaram identificar o endividamento | Afirma não ter identificado problema que impedisse registros corretos |
A divergência deixa uma questão central ainda sem resposta definitiva:
o que provocou as oscilações nos registros?
Por que o Itaú está apresentando esses documentos?
Os documentos aparecem em um contexto mais amplo de investigação sobre o escândalo da Americanas.
O papel das instituições financeiras que mantinham relações com a varejista também está sendo investigado.
Em junho de 2026, a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Disclosure, relacionada às fraudes na Americanas.
Segundo a PF, as supostas fraudes investigadas alcançaram aproximadamente R$ 54 bilhões.
Executivos e ex-executivos ligados a instituições financeiras apareceram entre os investigados nessa fase.
Isso significa que os documentos apresentados pelo Itaú não constituem uma auditoria independente sobre o SCR.
Eles também fazem parte da argumentação apresentada pelo banco no contexto das investigações.
CVM também investiga atuação dos bancos no caso Americanas
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mantém diferentes procedimentos relacionados ao caso.
Em 2026, a autarquia instaurou um inquérito para investigar especificamente a atuação de bancos e de seus administradores que mantinham relações comerciais com Americanas, B2W e Lojas Americanas.
O objetivo é apurar as condutas relacionadas às operações mantidas com as companhias.
A existência do inquérito não significa que as instituições ou seus administradores sejam culpados.
As responsabilidades ainda estão sendo investigadas.
Justiça torna 12 ex-executivos da Americanas réus
O caso também avançou na esfera judicial nesta semana.
Na quinta-feira, 16 de outubro, a Justiça Federal do Rio de Janeiro aceitou denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal contra 12 ex-executivos da Americanas.
Eles passaram à condição de réus em processo relacionado às fraudes investigadas na companhia.
Entre os crimes apontados na denúncia estão associação criminosa, falsidade ideológica e manipulação de mercado.
Parte dos acusados também responde por uso de informação privilegiada.
Tornar-se réu não significa condenação.
As acusações ainda serão analisadas durante o processo, e os acusados poderão apresentar suas defesas.
O avanço judicial ajuda a explicar por que o caso Americanas voltou a ganhar espaço no noticiário mais de três anos depois da revelação inicial das inconsistências contábeis.
O que diz a Americanas?
A Americanas informou que não teve acesso ao processo citado na reportagem que revelou os documentos apresentados pelo Itaú.
A empresa também afirmou que as informações relacionadas às operações de risco sacado foram republicadas nas demonstrações financeiras referentes a 2022.
A atual administração da Americanas tem sustentado que a companhia foi vítima de uma fraude praticada por integrantes da antiga diretoria.
Por isso, é importante separar as acusações direcionadas a antigos executivos da atuação da administração atual da empresa.
Afinal, houve falha no sistema do Banco Central?
Ainda não é possível afirmar.
Os documentos apresentados pelo Itaú mostram oscilações relevantes nos saldos consolidados que o banco afirma ter consultado no SCR.
O Itaú sustenta que essas inconsistências dificultaram a identificação da verdadeira exposição financeira da Americanas.
O Banco Central, por outro lado, afirma que não identificou falha no funcionamento do sistema que impedisse o registro correto das operações.
A autarquia também destaca que os dados são fornecidos pelas próprias instituições financeiras.
Até que as investigações avancem, não há base para afirmar que o Banco Central foi responsável pelas inconsistências apontadas pelo Itaú.
Também não há conclusão pública definitiva sobre qual instituição, procedimento ou circunstância provocou as oscilações.
O que ainda está sendo investigado?
O caso Americanas continua aberto em diferentes frentes.
Entre as questões que ainda precisam ser esclarecidas estão:
- por que os registros consolidados de risco sacado apresentaram fortes oscilações;
- quais instituições enviaram os dados envolvidos;
- se informações incorretas foram encaminhadas ao SCR;
- se houve algum problema na consolidação ou visualização dos dados;
- quais informações estavam efetivamente disponíveis aos bancos antes da revelação da fraude;
- se instituições financeiras ou seus administradores tiveram alguma responsabilidade;
- quais responsabilidades serão atribuídas aos antigos executivos da Americanas.
A discussão sobre o SCR acrescenta, portanto, uma nova camada a um dos maiores escândalos corporativos da história recente do Brasil.
Mais de três anos depois da descoberta inicial das inconsistências contábeis, a investigação já não busca apenas explicar como a fraude teria ocorrido dentro da Americanas, mas também o que bancos, auditores e demais participantes do mercado conseguiam enxergar enquanto ela acontecia.
E é justamente nesse ponto que o embate entre Itaú e Banco Central ainda está longe de uma conclusão.
Fontes: Banco Central, CVM, Polícia Federal, Itaú Unibanco, Americanas e UOL Economia.
