OAB Cobra Apuração Após Relatório da PF Citar Moraes e Vorcaro

Gabriel Oliveira
OAB Cobra Apuração Após Relatório da PF Citar Moraes e Vorcaro

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pediu uma apuração rigorosa e isenta dos fatos revelados por um relatório da Polícia Federal que analisa informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.

O documento identifica mensagens, registros de chamadas, arquivos e contratos que indicariam contatos entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O material também reúne informações sobre a relação do Banco Master com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

A divulgação provocou forte repercussão política e institucional. Apesar da gravidade das informações, o relatório não representa uma conclusão sobre a existência de crime e ainda poderá ser complementado com novas diligências.

O que a OAB disse sobre o caso

Em nota assinada pelo presidente em exercício do Conselho Federal da OAB, Délio Lins e Silva Jr., a entidade afirmou acompanhar o caso com “extrema preocupação”.

A Ordem pediu uma investigação que alcance todos os envolvidos, independentemente do cargo ocupado, mas ressaltou que devem ser preservados o devido processo legal, a ampla defesa e a presunção de inocência.

A OAB também demonstrou preocupação com os efeitos da crise sobre as instituições brasileiras, especialmente por envolver o Supremo Tribunal Federal durante o período eleitoral.

A íntegra da manifestação da OAB foi reproduzida pelo Poder360.

O que consta no relatório da Polícia Federal

O relatório possui 218 páginas e foi elaborado a partir da análise de um celular apreendido com Daniel Vorcaro durante a Operação Compliance Zero.

A investigação apura suspeitas de fraudes na venda de carteiras de crédito do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). Segundo a Polícia Federal, as operações investigadas alcançariam aproximadamente R$ 12 bilhões.

O documento foi produzido a pedido do ministro André Mendonça, relator do caso no STF, com o objetivo de identificar possíveis integrantes de uma rede de influência e monitoramento atribuída a Vorcaro.

A Polícia Federal entregou o relatório em 27 de agosto de 2026. O conteúdo tornou-se público em 1º de setembro, depois que Mendonça retirou o sigilo dos documentos.

O relatório completo da Polícia Federal pode ser consultado neste documento.

Como a PF identificou o destinatário das mensagens

De acordo com a análise técnica, Vorcaro utilizava o aplicativo de notas do celular para escrever determinados textos. Em seguida, fazia uma captura de tela e enviava a imagem pelo WhatsApp, em alguns casos utilizando o recurso de visualização única.

A Polícia Federal comparou os horários de abertura do aplicativo de notas, criação das capturas de tela, acesso ao WhatsApp e envio das mensagens. Essa sequência permitiu associar parte dos arquivos a destinatários específicos.

Segundo o relatório, algumas mensagens foram enviadas para um número vinculado a um contato identificado no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

Entretanto, em diversas situações, o conteúdo das eventuais respostas não foi recuperado. Por isso, não é possível reconstruir integralmente todas as conversas ou afirmar, apenas com os textos encontrados no aparelho de Vorcaro, como o interlocutor teria reagido.

Vorcaro mencionou PF, PGR e risco de prisão

Entre os textos analisados, há mensagens nas quais Vorcaro demonstra preocupação com o avanço das investigações envolvendo o Banco Master.

Em uma delas, o banqueiro menciona o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Vorcaro sugere que o interlocutor conversasse com as autoridades para evitar medidas que, em sua avaliação, prejudicariam o banco.

Outro texto atribuído a Vorcaro questiona se ele deveria deixar o país diante do risco de ser preso.

Essas mensagens são relevantes para a investigação, mas não provam, isoladamente, que os pedidos foram atendidos ou que alguma autoridade interferiu em favor do empresário.

Contrato com o escritório da esposa de Moraes

O relatório também aborda um contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.

O acordo previa pagamentos que poderiam alcançar aproximadamente R$ 131 milhões durante sua vigência. Metadados analisados pela PF indicariam que um arquivo relacionado ao contrato passou por edições atribuídas a Alexandre de Moraes antes da assinatura.

O escritório informou que consultou o ministro para verificar se existia algum impedimento jurídico. Segundo essa versão, concluiu-se que não havia conflito porque Moraes não participava de processos relacionados ao Banco Master.

A participação na revisão de um documento não comprova, por si só, a existência de irregularidade. O contexto das alterações, a natureza dos serviços contratados e os pagamentos realizados ainda precisam ser examinados pelas autoridades responsáveis.

O que Alexandre de Moraes respondeu

Alexandre de Moraes negou ter recebido as mensagens mencionadas no relatório e classificou a interpretação de que teria mantido essas comunicações com Vorcaro como uma ilação falsa.

A manifestação do ministro deverá ser considerada em qualquer investigação futura, assim como os dados técnicos reunidos pela Polícia Federal e os depoimentos das demais pessoas citadas.

Até o momento, não existe decisão judicial que declare Moraes culpado de qualquer irregularidade relacionada às informações encontradas no celular de Vorcaro.

André Mendonça pede discussão no plenário do STF

Após a divulgação do relatório, André Mendonça solicitou ao presidente do STF, Edson Fachin, a realização de uma sessão presencial para discutir o caso.

A iniciativa busca permitir que os ministros avaliem coletivamente os desdobramentos do material, especialmente porque as informações mencionam integrantes de instituições com foro por prerrogativa de função.

Caberá a Fachin decidir se a sessão será convocada e em qual data ocorrerá. Mendonça também pediu uma manifestação da Procuradoria-Geral da República antes de definir novas medidas no processo.

O que está comprovado até agora

Até este momento, está confirmado que:

  • a Polícia Federal analisou os dados do celular apreendido com Daniel Vorcaro;
  • o relatório foi produzido a pedido de André Mendonça;
  • os arquivos apresentam textos escritos por Vorcaro e registros técnicos de envio pelo WhatsApp;
  • parte dos envios foi associada a um contato identificado como Alexandre de Moraes;
  • o relatório reúne informações sobre contratos entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci;
  • a OAB pediu uma apuração rigorosa, isenta e com respeito às garantias constitucionais;
  • Moraes negou ter recebido as mensagens;
  • o caso ainda não resultou em condenação ou conclusão definitiva sobre a existência de crime.

Relatório não encerra a investigação

A própria Polícia Federal registra que a análise não possui caráter exaustivo. O documento foi elaborado dentro do prazo de 72 horas estabelecido por André Mendonça e poderá ser complementado.

A corporação também esclarece que não realizou, naquele relatório, diligências direcionadas à investigação criminal de magistrados ou integrantes do Ministério Público. O trabalho ficou restrito à identificação e à apresentação dos elementos já encontrados no material apreendido.

Isso significa que o documento pode fundamentar novas providências, mas não substitui uma investigação completa nem autoriza conclusões antecipadas sobre a responsabilidade das pessoas citadas.

Caso amplia pressão política sobre o STF

A divulgação ocorre durante a campanha eleitoral de 2026 e intensifica a pressão política sobre o Supremo. Parlamentares da oposição já utilizam o episódio para defender investigações e apresentar novos pedidos contra Moraes.

O posicionamento da OAB, entretanto, procura manter o caso no campo institucional. A entidade não declarou antecipadamente a culpa de nenhum envolvido: pediu que os fatos sejam apurados com independência e respeito à Constituição.

Os próximos movimentos dependerão da manifestação da PGR, da possível sessão do plenário do STF e de eventuais novas diligências da Polícia Federal.

Até que essas etapas sejam concluídas, a distinção entre evidências encontradas, hipóteses investigativas e responsabilidades comprovadas será fundamental para compreender o caso sem transformar suspeitas em condenações antecipadas.

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Gabriel Oliveira