Petróleo supera US$ 107: a gasolina pode subir no Brasil?

Gabriel Oliveira
Petróleo supera US$ 107: a gasolina pode subir no Brasil?

Atualizado em 15 de setembro de 2026: este artigo foi completamente revisado após o petróleo Brent superar US$ 107, em meio a novos ataques contra a Arábia Saudita, à interrupção de um oleoduto estratégico e ao aumento dos riscos para o abastecimento mundial.

Um conflito a mais de 12 mil quilômetros de distância voltou a pressionar o preço do petróleo — e pode, com algum atraso, chegar ao posto de gasolina, ao frete e ao supermercado no Brasil.

Resposta direta: o petróleo Brent subiu para US$ 107,35 por barril na manhã desta terça-feira (15), enquanto o WTI chegou a US$ 103,53. A alta aumenta a pressão sobre os preços da gasolina e do diesel, mas não significa que os combustíveis subirão imediatamente. Câmbio, tributos, biocombustíveis, política comercial da Petrobras e margens de distribuição também influenciam o valor cobrado nas bombas.

O que mudou desde a publicação original?

Quando este artigo foi publicado pela primeira vez, em 8 de setembro, o Brent havia fechado a US$ 98,06 e se aproximava dos US$ 100. Desde então, o risco geopolítico aumentou de maneira significativa.

Segundo a Reuters, os contratos futuros do Brent avançaram 1,58% na manhã de 15 de setembro, para US$ 107,35 por barril. O WTI, referência americana, subiu 2,11%, para US$ 103,53.

Os principais acontecimentos foram:

  • novos ataques contra alvos e infraestrutura da Arábia Saudita;
  • a interrupção do oleoduto Leste–Oeste saudita;
  • a queda do tráfego de embarcações pelo Estreito de Ormuz;
  • o adiamento de conversas diplomáticas entre o Irã e países do Golfo;
  • reduções na produção de diesel em importantes refinarias russas atingidas por drones.

O mercado deixou de acompanhar apenas uma ameaça ao transporte marítimo e passou a considerar também danos à infraestrutura utilizada justamente como alternativa ao Estreito de Ormuz.

Por que o oleoduto saudita é tão importante?

O oleoduto Leste–Oeste transporta petróleo da região produtora no leste da Arábia Saudita até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Sua função estratégica é permitir que parte das exportações sauditas contorne o Estreito de Ormuz.

Isso se tornou ainda mais importante porque o tráfego por Ormuz já estava reduzido. Antes da escalada do conflito, aproximadamente um quinto do abastecimento mundial de petróleo passava pela região.

Dados preliminares citados pela Reuters indicaram que o movimento de navios de commodities pelo estreito caiu de dez embarcações para quatro entre domingo e segunda-feira.

Com o oleoduto saudita temporariamente fora de operação, o ataque ameaça até 4% da oferta mundial de petróleo. As estimativas para a conclusão dos reparos variam bastante, indo de uma retomada rápida até um período de oito semanas.

O petróleo pode chegar a US$ 120 ou US$ 130?

Esses valores são possíveis em determinados cenários, mas não devem ser tratados como uma previsão garantida.

O Goldman Sachs afirmou que os ataques elevaram a probabilidade de o Brent superar US$ 120 caso a produção média do Golfo permaneça cerca de quatro milhões de barris diários abaixo dos níveis anteriores à guerra.

Já Hamad Hussain, economista da Capital Economics, avaliou que várias semanas de interrupção do oleoduto, sem redução da demanda ou aumento do fluxo por Ormuz, poderiam levar o Brent em direção aos US$ 130.

As duas projeções são condicionais: dependem da duração do problema, da capacidade de utilizar estoques, da resposta de outros produtores e do comportamento da demanda mundial. Uma retomada rápida das operações ou um avanço diplomático poderia reduzir os preços.

A gasolina vai subir no Brasil?

A pressão aumentou, mas um reajuste não é automático.

A Petrobras não aplica uma paridade diária obrigatória com o mercado internacional. Sua estratégia comercial busca evitar que cada movimento de curto prazo do petróleo e do câmbio seja repassado imediatamente ao consumidor.

Isso significa que a empresa pode observar se a alta será passageira ou persistente antes de alterar os preços praticados para as distribuidoras.

Também existe uma diferença entre o preço vendido pela Petrobras e o valor encontrado nos postos. De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, o preço final depende de diversos componentes:

  • preço praticado nas refinarias e por importadores;
  • tributos federais e estaduais;
  • cotação do dólar;
  • etanol anidro misturado à gasolina;
  • biodiesel misturado ao diesel;
  • custos de transporte;
  • margens de distribuição e revenda.

Por isso, mesmo um eventual reajuste nas refinarias não costuma chegar integralmente nem imediatamente ao consumidor.

O que aconteceu com o preço da gasolina em setembro?

Um comunicado recente da Petrobras ajuda a entender por que a formação do preço é mais complexa do que simplesmente acompanhar o barril.

Em 10 de setembro, a empresa encerrou um desconto de R$ 0,44 por litro que estava relacionado a um programa de subvenção econômica. Com isso, o preço médio da gasolina A vendido pela Petrobras às distribuidoras passou a R$ 3,05 por litro.

Ao mesmo tempo, o governo reduziu em R$ 0,63 por litro as alíquotas de PIS/Pasep e Cofins. Segundo a companhia, o efeito líquido naquele momento foi uma redução de R$ 0,19 por litro no preço com tributos percebido pelas distribuidoras.

Os dados estão no comunicado oficial da Petrobras.

Esse movimento ocorreu antes da nova alta do petróleo. Portanto, ele não elimina a pressão provocada pelo mercado internacional, mas mostra por que não é correto concluir que um aumento do barril será automaticamente reproduzido nas bombas.

O que é defasagem de preços?

Defasagem é a distância entre o preço praticado no mercado brasileiro e uma referência internacional de importação.

Quando o combustível vendido internamente fica muito abaixo do custo necessário para importar o mesmo produto, empresas independentes podem deixar de realizar importações porque comprariam caro no exterior para competir com preços menores no Brasil.

Esse problema é especialmente sensível no diesel, produto que o país ainda precisa importar em quantidade relevante.

A defasagem serve como indicador de pressão, mas não funciona como previsão direta de reajuste. Uma diferença de determinado percentual não significa que a Petrobras aumentará o combustível nessa mesma proporção.

Por essa razão, esta atualização não repete os percentuais divulgados no início de setembro: com a mudança dos preços, dos tributos, do câmbio e do barril, aqueles números já não representam necessariamente a situação atual.

Quando a alta pode chegar aos postos?

Existem três cenários principais:

1. O petróleo recua rapidamente

Se o oleoduto voltar a operar e as tensões diminuírem, parte do aumento pode ser devolvida antes de qualquer reajuste relevante no Brasil.

2. O petróleo permanece acima de US$ 100

Uma alta persistente amplia a pressão sobre refinarias e importadores. Nesse cenário, aumenta a possibilidade de reajustes graduais na gasolina e principalmente no diesel.

3. O Brent avança para US$ 120 ou mais

Uma nova disparada tornaria mais difícil absorver a diferença por muito tempo. Também elevaria os custos de frete, importação e produção, aumentando o risco de impactos mais amplos na inflação.

Até o momento desta atualização, a Petrobras não anunciou um reajuste motivado pelos acontecimentos de 15 de setembro.

Como o petróleo pode afetar a inflação e a Selic?

O primeiro efeito pode aparecer nos transportes. Se gasolina, diesel ou combustível de aviação subirem, famílias e empresas passam a gastar mais para se deslocar e transportar mercadorias.

O diesel possui um efeito ainda mais abrangente porque grande parte dos produtos consumidos no Brasil circula por caminhões. Um aumento persistente pode encarecer alimentos, materiais de construção, produtos industriais e entregas.

O IPCA registrou deflação de 0,32% em agosto, mas esse resultado se refere a um período anterior à atual escalada do petróleo. O choque mais recente só aparecerá nos índices de inflação se houver transmissão efetiva para os preços domésticos.

O movimento ocorre justamente durante a reunião do Copom de 15 e 16 de setembro. Como explicamos no artigo sobre o que o mercado espera para a Selic, a expectativa predominante era de um corte de 14% para 13,75% ao ano.

Um choque iniciado poucos dias antes da decisão não determina sozinho o resultado da reunião. Entretanto, se o petróleo permanecer elevado, o Banco Central poderá adotar uma comunicação mais cautelosa sobre novos cortes, devido ao risco de pressão inflacionária nos meses seguintes.

Petróleo caro é bom para quem possui PETR4?

Não existe uma resposta automática.

Como produtora, a Petrobras tende a se beneficiar quando o petróleo sobe, porque o óleo extraído e exportado pela companhia passa a valer mais. Isso pode ampliar receitas e margens na área de exploração e produção.

Por outro lado, a empresa também atua no refino e na venda de derivados. Se o petróleo internacional sobe e os preços domésticos permanecem abaixo das referências externas por muito tempo, as margens dessa parte da operação podem ficar pressionadas.

Também entram na análise:

  • cotação do dólar;
  • volume produzido e exportado;
  • custos operacionais;
  • política de preços;
  • investimentos;
  • tributação;
  • decisões do governo controlador;
  • duração do choque internacional.

Portanto, “petróleo subiu” não significa necessariamente “PETR4 vai subir”. Antes de comprar qualquer empresa por causa de uma notícia, vale aplicar uma análise mais completa, como mostramos no guia sobre como analisar uma ação antes de investir.

O que observar nos próximos dias

  • Reparos no oleoduto Leste–Oeste: uma retomada rápida reduziria parte da pressão sobre a oferta.
  • Movimento no Estreito de Ormuz: aumento ou nova queda no tráfego de navios pode alterar as expectativas do mercado.
  • Novos ataques: danos adicionais a portos, oleodutos ou refinarias poderiam elevar o risco.
  • Comunicados da Petrobras: somente a companhia pode confirmar alterações em seus preços para as distribuidoras.
  • Levantamentos da ANP: os dados semanais mostram se a alta chegou efetivamente aos postos brasileiros.
  • Cotação do dólar: um real mais forte pode amortecer parte do impacto, enquanto um dólar mais caro aumenta a pressão.
  • Decisão do Copom: além da taxa, será importante observar como o Banco Central tratará o risco provocado pelo petróleo.

O que isso significa para o seu bolso?

Não há motivo para correr ao posto ou tomar decisões financeiras precipitadas. O aumento do petróleo é um sinal de atenção, não a confirmação de um reajuste imediato.

Para o consumidor, o principal risco é a permanência do barril acima de US$ 100 durante várias semanas. Quanto mais longo for o choque, maior a possibilidade de efeitos sobre combustíveis, passagens, fretes e produtos transportados por rodovias.

Para o investidor, a mensagem é semelhante: movimentos geopolíticos podem mudar rapidamente. Comprar ou vender ações apenas porque o petróleo subiu em uma manhã ignora todos os outros fatores que determinam o resultado das empresas.

O cenário ficou mais preocupante desde a publicação original deste artigo, mas a resposta continua sendo equilibrada: a pressão sobre gasolina, diesel e inflação aumentou, embora a alta do barril ainda não represente um reajuste automático no Brasil.

Perguntas frequentes

A gasolina vai aumentar imediatamente?

Não existe reajuste automático. A Petrobras pode esperar para avaliar se a alta será persistente antes de alterar seus preços para as distribuidoras.

O Brent já passou de US$ 107?

Sim. Na manhã de 15 de setembro, os contratos futuros do Brent chegaram a US$ 107,35 por barril, segundo a Reuters.

O petróleo pode alcançar US$ 120?

Pode, segundo cenários apresentados por analistas, mas isso dependeria de uma interrupção prolongada da oferta. Não se trata de uma previsão garantida.

Se o petróleo subir 10%, a gasolina também sobe 10%?

Não. O petróleo é apenas um dos componentes. Câmbio, tributos, etanol, distribuição, revenda e decisões comerciais também influenciam o preço final.

A redução tributária impede uma nova alta?

Não necessariamente. Ela produziu um alívio no preço percebido pelas distribuidoras em 10 de setembro, mas um choque internacional prolongado pode criar novas pressões.

O preço alto beneficia a Petrobras?

Pode beneficiar a produção e as exportações de petróleo, mas também pode pressionar o refino e aumentar os riscos associados à política de preços. O efeito final depende do conjunto das operações.

Fontes consultadas

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