Flávio Bolsonaro é investigado no STF por financiamento do filme “Dark Horse”

Gabriel Oliveira
Flávio Bolsonaro é investigado no STF por financiamento do filme “Dark Horse”

Inquérito autorizado pelo ministro André Mendonça apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção em operações relacionadas ao financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio nega irregularidades e defende a retirada completa do sigilo.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, é formalmente investigado pelo Supremo Tribunal Federal em um inquérito relacionado ao financiamento de “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A investigação foi autorizada pelo ministro André Mendonça em 22 de julho de 2026, após solicitação da Polícia Federal. Embora o inquérito tenha sido aberto em julho, a informação ganhou nova dimensão pública em setembro, quando parte dos documentos relacionados ao caso Banco Master teve o sigilo retirado.

Os investigadores apuram a possível prática de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos relacionados às operações financeiras da produção. A existência do inquérito, contudo, não representa denúncia, julgamento ou comprovação de culpa.

O que a Polícia Federal investiga?

O centro da investigação é a participação atribuída a Flávio Bolsonaro nas negociações para obter financiamento privado para “Dark Horse”. O projeto previa um investimento total de até US$ 24 milhões, equivalente a mais de R$ 120 milhões pela cotação atual.

Segundo os documentos conhecidos até o momento, aproximadamente US$ 12,3 milhões teriam sido enviados, ao longo de 2025, para o Havengate Development Fund, um fundo localizado nos Estados Unidos.

Os recursos teriam saído da Entre Investimentos e Participações e sido direcionados ao fundo a pedido do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master e personagem central das investigações sobre a instituição financeira.

O fundo norte-americano é administrado por Paulo Calixto, advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro. A Polícia Federal pretende esclarecer a origem do dinheiro, o caminho percorrido pelos recursos, sua destinação efetiva e quem foram os beneficiários finais das operações.

Mensagens mostram Flávio cobrando os repasses

A Polícia Federal afirma ter encontrado no celular de Daniel Vorcaro mensagens que mostram Flávio Bolsonaro acompanhando as negociações e cobrando a liberação de recursos para o filme.

De acordo com o relatório policial divulgado, o senador teria atuado como interlocutor direto de Vorcaro nas tratativas, participado de reuniões e acompanhado o andamento das gravações.

Em algumas das mensagens, Flávio demonstrava preocupação com compromissos assumidos pela produção com o ator norte-americano Jim Caviezel e com o diretor Cyrus Nowrasteh. O senador também teria alertado para o risco de paralisação das filmagens caso os pagamentos não fossem realizados.

Para a PF, esse conjunto de conversas, cobranças e possíveis encontros justificou a abertura de uma investigação destinada a esclarecer a natureza das operações.

Projeções financeiras chamaram a atenção dos investigadores

Outro ponto questionado pela Polícia Federal foi o plano de negócios da produção. O documento previa uma arrecadação entre US$ 45 milhões e US$ 100 milhões nas bilheterias.

Na avaliação preliminar dos investigadores, as projeções eram muito superiores aos resultados normalmente alcançados pelo cinema nacional. Também teria chamado a atenção a ausência de um detalhamento completo sobre como os US$ 24 milhões previstos seriam distribuídos entre gravações, elenco, produção, marketing e outras despesas.

Essas inconsistências não comprovam, por si mesmas, a ocorrência de lavagem de dinheiro. Elas foram apresentadas pela PF como elementos que justificam uma apuração mais aprofundada sobre a viabilidade econômica e a finalidade real da operação.

O que diz Flávio Bolsonaro?

Flávio Bolsonaro confirmou que procurou Daniel Vorcaro em busca de recursos para financiar “Dark Horse”, mas negou qualquer irregularidade ou contrapartida política.

Segundo o senador, o projeto foi financiado com recursos privados e não há ilegalidade em buscar investidores para uma produção cinematográfica. Flávio também afirmou que a transparência completa das investigações deverá confirmar sua versão.

Durante uma agenda de campanha em Manaus, o candidato defendeu que André Mendonça retire o sigilo de todo o material que puder ser divulgado legalmente.

Eduardo Bolsonaro também negou ter recebido recursos ilícitos. Ele sustenta que não houve pagamento de propina e afirma que a movimentação do dinheiro para os Estados Unidos estava relacionada ao financiamento regular da produção.

Parte da investigação permanece sob sigilo

Apesar da divulgação de diferentes documentos, algumas informações permanecem protegidas porque estão relacionadas a diligências ainda em andamento.

Essa distinção é importante: houve uma retirada parcial dos sigilos, mas nem todo o conteúdo da investigação sobre Flávio Bolsonaro e o financiamento do filme se tornou público.

O ministro André Mendonça informou ao presidente do STF, Edson Fachin, que liberou os documentos cuja divulgação não comprometeria as apurações. Fachin havia determinado maior transparência nos processos relacionados ao Banco Master, preservando apenas medidas investigativas que ainda estivessem em execução.

A decisão faz parte da tentativa de organizar as diferentes frentes do caso Master após uma série de conflitos internos no Supremo. O Mão na Grana explicou anteriormente como Fachin interveio nas investigações e determinou novas regras para os processos.

Investigação sobre Mário Frias é uma frente diferente

O caso de Flávio Bolsonaro não deve ser confundido com outra investigação envolvendo o deputado federal Mário Frias (PL-SP), apontado como um dos idealizadores e produtores executivos do filme.

Essa segunda frente apura a possível utilização de recursos originados de emendas parlamentares e o eventual desvio de aproximadamente R$ 750 mil. Embora as duas apurações tenham ligação com “Dark Horse”, elas tratam de operações e suspeitas diferentes.

Portanto, não é correto afirmar, neste momento, que a investigação sobre Flávio tenha comprovado o emprego de dinheiro público no financiamento negociado com Daniel Vorcaro.

Quais podem ser os próximos passos?

A Polícia Federal poderá analisar documentos bancários, contratos, mensagens e registros das operações realizadas no Brasil e nos Estados Unidos. Investigadores também deverão procurar identificar os beneficiários finais dos recursos e verificar se os valores foram efetivamente utilizados na produção do filme.

Após a conclusão das diligências, a Procuradoria-Geral da República poderá avaliar se existem elementos para apresentar uma denúncia, solicitar novas medidas ou pedir o arquivamento da investigação.

Até que isso aconteça, Flávio Bolsonaro permanece na condição de investigado e conserva o direito à presunção de inocência.

Possível impacto nas eleições de 2026

A revelação ocorre durante a campanha presidencial e poderá ser explorada politicamente pelos adversários de Flávio Bolsonaro. O caso também aumenta a pressão para que o STF e a Polícia Federal garantam transparência sem divulgar informações capazes de prejudicar diligências legítimas.

Ainda não existem dados suficientes para afirmar que a investigação modificará a intenção de voto dos brasileiros. Qualquer conclusão sobre seu impacto eleitoral, neste momento, seria especulativa.

O ponto concreto é que um dos principais candidatos à Presidência passou a enfrentar questionamentos formais da Polícia Federal sobre operações envolvendo Daniel Vorcaro e recursos destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro.

Em resumo

  • Flávio Bolsonaro é formalmente investigado no STF;
  • o inquérito foi autorizado por André Mendonça em 22 de julho de 2026;
  • a PF apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção;
  • o projeto previa investimento de até US$ 24 milhões;
  • pelo menos US$ 12,3 milhões teriam sido enviados para um fundo nos Estados Unidos;
  • Flávio admite ter buscado financiamento, mas nega irregularidades e contrapartidas;
  • parte do processo continua sob sigilo;
  • a investigação ainda não resultou em denúncia ou condenação.

Este artigo poderá ser atualizado conforme novos documentos, decisões judiciais ou manifestações oficiais sejam divulgados.

Fontes consultadas

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